sábado, 9 de outubro de 2010

DEMOCRACIA DIGITAL



No Brasil, 136 milhões de eleitores acabam de expressar a respectiva vontade cívica em eleições para a Presidência da República, Senado, Congresso, Governos e Parlamentos estaduais. Tudo feito através do voto electrónico. Algo complexo, diga-se, pois há que decorar chaves de candidatos identificados por números. Mas a coisa vai!..

Num país com aquela dimensão e dispersão geográficas - à parte uma certa suspeição política permanente – a verdade é que ao fim de poucas horas o escrutínio está feito, os resultados são publicados e aceites sem que se conheçam impugnações ou desconfianças face à natureza electrónica do voto. Um caso muito interessante.

Em Portugal, assim como noutros países europeus, ainda se receia pela transparência, confidencialidade e segurança deste modelo eleitoral. Confesso, que, depois de tantos pilotos realizados, não compreendo o cepticismo, sobretudo num país como o nosso.

O cartão do cidadão, projecto notável e pioneiro, detém mecanismos que garantem a segurança e confidencialidade dos dados que encerra. Esse dispositivo está, hoje, profusamente distribuído e pouco faltará para cada um ter o seu. Ora, essa chave electrónica é a porta de acesso a uma parafernália de utilizações que melhorarão a vida dos cidadãos e da sua relação com a administração, inclusive no exercício do voto.

Ser um mero repositório de informação (BI, Cartão de eleitor, NIF,...) é muito pouco para as potencialidades de uma ferramenta digital como o cartão do cidadão. Importa pois aprofundar nos usos e nas soluções que representa enquanto avanço cívico e democrático.

Tornar o Estado mais aberto e transparente, reduzir a burocracia pela desmaterizalização, promover a acessibilidade à informação pública, tornar a participação cívica mais activa e impactante são, com certeza, desideratos que promovem melhor democracia e mais legitimidade, pelo que as tecnologias da informação são ferramentas indispensáveis para os atingir. Alguém duvida?

DEMOCRACIA DIGITAL



Somos por natureza deprimidos, mas a forma como nos é apresentado o contexto actual, designadamente pelos media, aprofunda esse desânimo. Ora, na semana que termina, houve boas razões para mais optimismo e energia redobrada.

Foi apresentada a nova Agenda Digital 2015 para Portugal. Mais do que um programa de políticas é um desígnio e um compromisso com a inovação e a modernidade. De tal modo, que outros, sobretudo em Bruxelas, esperam com atenção pelo respectivo desenvolvimento para se inspirarem em medidas que concretizem a Agenda Europeia 20:20.

Podemos ter Orçamentos restritivos, o FMI ou o Berlaymont a entrar-nos porta-dentro, mas o que é verdadeiramente estratégico são apostas concretas em mais conhecimento, tecnologia e inovação, que alimentem um ciclo virtuoso de mais competências nas pessoas, mais internacionalização da economia e uma balança tecnológica positiva.

Esse é o caminho. Não há outro!

Um estudo da BCG, “The Economic and Social Impact of Next Generation High Speed Broadband”, revela que este programa de investimento previsto para a criação de uma rede de banda larga de nova geração de acesso universal poderá provocar um crescimento anual de 3000 milhões de Euros (1,8% do PIB) considerando o impacto directo e o efeito multiplicador noutros sectores, “criando 15 a 20 000 empregos qualificados e reduzindo 1,4 milhões de toneladas de emissões de CO2”.
Impressionante!

A Agenda Digital tem mais quatro eixos estruturantes (a que voltaremos): Melhor Governação, Educação de Excelência, Saúde de Proximidade e Mobilidade Inteligente. Convictamente, a Agenda Digital 2015 é o denominador comum do país – não conheço outro - deve pois ser aproveitado.

Publicado no Jornal OJE

DEMOCRACIA DIGITAL



O governo anunciou ao país, esta semana, um orçamento altamente restritivo e com medidas muito duras para fazer face à situação crítica em que nos encontramos. Enaltece-se a coragem.

Em Portugal, somos mestres em “lançar a primeira pedra” e nos anúncios com toda a pompa e circunstância. Já somos débeis na execução e no cumprimento das metas. Ora, o pacote de medidas de contenção da despesa pública e de relançamento da confiança externa no nosso sistema económico e financeiro é um bom ponto de partida para acrescentar uma outra iniciativa interessante às muitas práticas de “e-government” já tomadas.

À semelhança do que fez no passado ano o Presidente Obama (cfr. www.recovery.gov), aquando dos primeiros pacotes de estímulo, bem andaria o governo português se lançasse na internet um portal que reflectisse quase “on time” o evoluir e a execução das medidas políticas agora anunciadas.

Dito de outro modo, o escrutínio público é um dever e um direito cívico e por isso mesmo a transparência nos dados da administração permitem uma maior “accountability”. Sinal de maturidade e de desenvolvimento. Gostaríamos, decerto, todos de saber às quantas andamos para aferir se vale realmente a pena o esforço colectivo.

Um portal como o acima mencionado, cuja visita se aconselha, permitiria percebermos o ritmo das receitas fiscais; a flutuação da dívida externa; o grau de poupança no sector público e empresarial do Estado; os níveis de investimento público; o “rating” nacional; o comportamento dos mercados externos, etc etc.

Hoje em dia, o governo tem todos estes dados na sua posse seria um sinal de modernidade e maturidade democrática torná-los públicos para que todos nos sentíssemos parte da solução e externamente se observassem os indicadores. Além do mais, para um país que está muito bem referenciado no “governo electrónico” seria um passo natural!

Publicado no Jornal OJE

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

IR ALÉM DO ÓBVIO!



Por este andar a nossa candidatura à organização do Mundial de Futebol de 2018 será a garantia para termos assegurada a participação na fase final sem preocupações de maior. Fica tudo administrativamente tratado...

Falando sério: hoje, grande parte do país já está convencido da bondade e da importância desta candidatura. Recordo bem quando há dois anos se falou pela primeira vez nesse desiderato (pela boca de Hermínio Loureiro, então presidente da Liga) as diversas reacções então produzidas foram maioritariamente críticas, vindas de muitos que agora se preparam para ficar na fotografia da aclamação...

Tenho algumas premissas das quais parto e que, confesso, só abdico quando comprovadamente erradas: a) qualquer projecto ibérico é bom para Portugal; b) qualquer evento ou compromisso com impacto internacional efectivo é positivo para Portugal; c) qualquer manifestação que mobilize a energia nacional e promova a nossa auto-estima é desejável. Passo, então a explicar.

Portugal precisa de mais iberismo. Precisamos de nos integrar crescentemente como parte desta região europeia como forma de ganharmos mercados e competências. Ora, uma candidatura conjunta com a Espanha é algo que só nos dignifica e da qual retiraremos decerto vantagens.

Tanto mais, que não teremos que fazer esforços financeiros extraordinários, pois as estruturas do Porto e de Lisboa estão aptas a receber grandes eventos. Deveremos é começar já a garantir que as outras cidades possam acolher os estágios e os jogos de preparação das diversas selecções apuradas para, assim, se maximizarem todas as estruturas criadas para o Euro 2004.

Aparecermos ao lado de um campeão do Mundo e da Europa só nos enobrece, seja no futebol, no andebol ou no xadrez. Um campeão é um campeão. Deixemo-nos pois influenciar e perceber porquê...

Por outro lado, Espanha é um dos países do mundo com a mais elevada taxa de turistas, pelo que poderemos aproveitar desse facto e acolher cá dentro muitos dos que visitarão “nuestros hermanos”. Além de que, claro, são muitos os estudos que demonstram a notoriedade e a visibilidade internacional que momentos como estes dão ao país...o equivalente a muitos anos de má diplomacia económica...

Finalmente, o nosso fado não é sermos sempre os terceiros ou os últimos de qualquer coisa. Não temos escrito no ADN colectivo: perdedores. Não! O povo português precisa mais que outros de viver momentos que projectem a sua grandeza e promovam a respectiva auto-estima. Somos assim. Não é defeito, apenas feitio. Recordamos bem – e com saudade! – como o Europeu de 2004 serviu para recuperar valores pátrios tão importantes e tão simples como o orgulho na bandeira. Isto tem um valor social e cultural significativos, mas também económico. Isto é ir além do óbvio...

Provem-me o contrário!

DEMOCRACIA DIGITAL



A propósito dos tumultos em Moçambique escutava, esta manhã, uma jornalista improvisada a referir que as manifestações populares tinham sido convocadas por sms, fugindo em grande medida ao controlo da segurança do estado, e que, à cautela, o governo teria condicionado os serviços e acessos à internet.

Ora, não sendo estes factos uma novidade, confirmam a tendência inexorável – já antes sentida no Irão por exemplo – para ver na internet e nas novas tecnologias canais e instrumentos privilegiados para fazer eco do descontentamento popular, organizar greves e manifestações e promover rebeliões.

Em Maputo ou em Teerão vale de pouco cortar o acesso à rede. Existem, nos dias de hoje, múltiplas alternativas. Não vale a pena ir contra uma corrente que é avassaladora.

É curioso observar que, sendo Moçambique um dos países mais pobres do mundo e tendo dos mais elevados “gap” digitais, a população faça uso das TIC para se mobilizar e exercer direitos. Esta questão conduz-nos ao facto de que a Internet aproxima e não segrega; ajuda a reduzir assimetrias e intensifica a vigilância cívica. Isto são vantagens evidentes.

Não por acaso as grandes operadoras mundiais de telecomunicações e os gigantes da informática olham para África com muita atenção pelo potencial de consumo que representa.

Para os governos, de África como da Europa, a atitude mais avisada não será o controlo férreo sobre a rede – opção contra-natura - mas, antes, utilizar as virtualidades da rede para aprofundar o relacionamento entre o Estado e os Cidadãos e entre estes. Para o efeito, e tão importante quanto medidas de desmaterizaliação e modernização administrativa pela via digital, é o incremento das novas tecnologias no sistema educativo.

Em suma, a palavra-chave para gerir estas tendências é EDUCAÇÃO e não repressão!

Publicado no JORNAL OJE

MAIS DO MESMO!



É sempre assim. Aproxima-se o fim da época balnear e eis que os partidos políticos aproveitam para fazer a dita “rentrée”. Marcam-se comícios, jantares, sessões de lombo assado, universidades de verão e mais “um par de botas”. Parêntesis: reentrada em quê, se eles nunca saem de cena?..

Desta feita, não me deterei no que uns e outros aproveitam para dizer e apregoar este ano. Fica para o Professor Marcelo...Aproveitarei a ocasião para expressar o que eu gostaria de lhes ouvir.

Face ao estado do país e da Europa (que regra geral não vai melhor) seria extraordinamente importante e oportuno não perder muito tempo com discussões estéreis sobre a Revisão Constitucional virtual - sim, porque a mesma para existir tem que ter a concordância formal dos dois maiores partidos, sem isso tudo se resume a coisa nenhuma.

O anúncio de que os principais partidos teriam acordado formal e solenemente na criação de um pacote reformista para os próximos 3 anos seria o melhor presente para o país. Já imaginou?..

No Pontal ou na Pontinha, em Matosinhos ou no Seixal, onde quer que fosse, imaginemos pois que os principais líderes políticos apareciam juntos a elencar um conjunto de medidas para reformar e promover a Justiça, o Emprego, a Educação, a Modernização Administrativa e a Saúde.

E não seria preciso um chorrilho de medidas. Meia-dúzia eficazes seriam o suficiente para mudar muita coisa naquelas cinco áreas essenciais na organização de um Estado e para o quotidiano de um povo. De certeza que, depois disto, as imposições de Bruxelas, os critérios de convergência e os PEC´s perderiam parte do sentido...
Há um tempo para tudo. É assim nas vidas individuais e também no decurso das democracias. Actualmente vivemos uma crise sem precedentes que obrigaria forçosamente a outro tipo de atitude por parte das lideranças partidárias. Impõe-se o consenso alargado, mais que o populismo demagógico e o oportunismo das ideias.
Um dia ouvi que “o consenso é a negociação da liderança”, pois bem ficará na história quem tiver a capacidade de partilhar e de gerar esse consenso, que o mesmo é dizer: liderar.

Nunca esquecer que o povo português é especialmente atento...

Este ano dá-se a particularidade de os candidatos presidenciais também ensaiarem as respectivas aparições. O momento é pré-eleitoral. Ora, excelente oportunidade para compreender como cada um deles – no respeito pelos poderes presidenciais que assentam num modelo de “magistratura de influência” – observa o desafio de mobilizar toda uma nação para sairmos deste impasse perigoso em que nos encontramos. É que, desta vez, ao Presidente não bastará a técnica dos “paninhos quentes” é preciso que seja, em consonância com o governo, um mobilizador de vontades, um poço de energia para apelar às grandezas deste povo.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

ANOREXIA COIMBRÃ



Coimbra perdeu peso nas últimas – diria essencialmente duas - décadas. Este facto é insofismável. Perdeu influência política, económica, social e académica. Em suma, “caiu do pedestal”, ainda que muitos se recusem a ver essa realidade. E essa resistência tem sido assassina.

Basicamente, Coimbra perdeu peso por três razões: ausência de um plano de desenvolvimento estratégico; desqualificação das lideranças e inadaptação à mudança.
Então, vejamos: uma qualquer empresa, seja pequena ou grande, pode até sobreviver mas não cresce sem um plano de negócio e sem uma linha de orientação clara.

Ora, com os países, com as cidades e com as regiões passa-se exactamente o mesmo. Coimbra, que até tinha alguma indústria, assentou a sua (sobre)vivência em serviços sobretudo públicos e relacionados com a saúde.

Porém, os processos industriais foram-se alterando, a dimensão do Estado está inexoravelmente a reduzir-se e a saúde vem-se privatizando e especializando crescentemente, pelo que se perderam os pilares económicos e sociais.

Acresce, que Coimbra não soube planear e por isso mesmo não antecipou as tendências, sejam económicas ou outras, e, por isso mesmo, raramente é proactiva e liderante no contexto nacional.

“O que queremos que Coimbra seja dentro de 15 anos?”- este é o debate que vale a pena travar, agregando todos sem excepção. Sem esse desafio será sempre mais do mesmo.

Por outro lado, como se não bastasse a falta de um rumo claro, os protagonistas locais com responsabilidades (independentemente do partido político, a sublinhado) não têm merecido o reconhecimento nacional. Coimbra era tido por alfobre de lideranças – Primeiro-Ministro, Ministros, Secretários de Estado, Directores-Gerais,... – tantas vezes causando a inveja da macrocefálica capital. Hoje, uns artigos no jornal local e dois minutos numa televisão já dão estatuto e auto-confiança para poder ser reeleito...

Há muito que nos “corredores do poder” (económico, político, cultural) Coimbra é sinónimo de arqueologia e de um certo odor a mofo. É triste, mas é assim. Quem nos representa nos foruns de decisão é anónimo, não tem vida própria, nem pensamento conhecido. Move-se pela vidinha...e pela reforma...

Paradoxalmente, Coimbra continua a formar todos os anos muitos recursos de qualidade, contribuindo para uma assinalável exportação de talento. Há-os às centenas por esse Mundo fora. Há ainda os que resistem estoicamente a sair...até um dia.

Coimbra tem uma diáspora própria que poderia ser usada como bolsa de valores e de criatividade. Estão muitos disponíveis para esse contributo. Mas quem “ordena” (gerir é outra coisa!) não sabe nem que eles existem, nem lhes interessa o que têm para dizer...

Finalmente, Coimbra não se adaptou àquilo que o filósofo Heraclito trata por “devir”: a mudança. Nunca como hoje o Mundo mudou, transformando-se a cada minuto. Coimbra resiste a um modelo de cidade e de região em que comandava sobranceira a partir da Torre da Universidade os destinos do país. Infelizmente, para todos, os pressupostos mudaram radicalmente. A Universidade portuguesa não é a mesma, o país não é o mesmo e os portugueses também são outros.

A habilidade para a adaptação é um “skill” essencial para o sucesso, desde que assente num plano e nas pessoas certas, de outro modo é puro oportunismo que cheira a perversão e trará apenas a vantagem de alguns e não de todos como se deseja.
Enfim, mas tudo isto interessa pouco a Coimbra (a esta Coimbra, explico). Afinal de contas, estamos no fim de Julho e vamos a banhos para a Figueira...

A MÚSICA É OUTRA...



Vilar de Mouros continua a ser uma pacata vila do norte português. Excepção feita para uns dias no ano, quando se transforma numa das catedrais do rock em Portugal e a agitação emerge. Saudável movimento dizem os locais que passam o ano a pensar no dito. O mesmo se poderia dizer da vizinha Paredes de Coura, da Zambujeira do Mar e de outras localidades, que não fora o mapa detalhado, não saberíamos nunca onde ficam.

Pois bem, os festivais de música contribuíram decisivamente para o desenvolvimento turístico destas localidades e para a geração de riqueza local, que assim passaram a estar no roteiro nacional e internacional, durante os dias dos concertos, mas também muito para além destes.

Há festivais para todos os gostos: de música sinfónica ao rock, da electrónica ao jazz. De diversos elementos em comum destacaria um: são factores de promoção local.
Veja-se o caso do “Rock in Rio Lisboa”, que, apesar do “Delta Tejo”, do “Optimus Alive”, do “Super Bock Super Rock”, todos na mesma cidade, ganhou uma dimensão mundial relevante e promove como poucos eventos o nome da nossa capital. É oferta cultural com qualidade que se associa a uma estratégia de promoção externa importante.

Coimbra, que já teve festivais de música reputados, tem hoje (apenas) o “Jazz ao Centro”, que não é coisa pouca pela qualidade intrínseca do mesmo, porém, ao que parece, muito pouco apoiado pelos organismos públicos e, sobretudo, pela autarquia a quem caberia um papel-chave nesta matéria. Repare-se que, mesmo para um leigo como eu, ao falar em jazz penso imediatamente em Cascais (Cascais Jazz e Luís Villas-Boas). Há marcas que se constróem e associações ineludíveis.

Quando falamos de Coimbra, actualmente, já só nos resta a associação a arrufadas e pastéis de santa clara!!.. Muito pouco para tamanha história e riqueza intrínseca. A música aqui é outra!..

FAZER DO ERRO UMA LIÇÃO



Saber interpretar os erros e as derrotas é tão importante quanto explorar os efeitos do sucesso. Tenho para mim que deve ser assim sempre. Na escola, na empresa, na vida em geral, logo, também no desporto.

Os portugueses estão pouco habituados a reflectir sobre as causas do insucesso. Fogem desse debate, fazendo a fuga para a frente, crendo que assim enganam uma espécie de fado colectivo. Erro crasso! Assim nunca compreenderemos porque falhamos...

Na época passada, a Briosa poderia ter alcançado, sem espanto, uma posição classificativa que daria acesso directo às competições europeias, acaso não tivesse falhado por inúmeras ocasiões nos últimos três minutos do jogo. Ao invés, vivemos em sobressalto. Todavia, não é sina ou inevitabilidade metafísica sofrer golos “ao descer do pano”. Não! Então o que se passou?..

Pois bem, na preparação da época que agora inicia deveria exactamente começar-se por entender as causas dos infantis erros no passado recente. Haverá decerto justificação para as mesmas seja no domínio desportivo, psicológico ou outro. Essa revelação teria um valor estratégico imenso. Dirigentes e equipa técnica começaram a construir a actual equipa partindo daquela interrogação?.. Pois não sei...

Por outro lado, depois de experiências técnicas muito interessantes como Domingos e Villas-Boas o grau de exigência naturalmente aumentou e, confesso, Jorge Costa terá que provar desde logo que foi uma escolha acertada a todos os níveis. Dentro e fora do campo.

Duas considerações antes de fechar: já passou muito tempo desde que o Zé Castro foi embora. O mesmo é dizer que há muito que a Académica não transfere um activo formado nas suas “canteras”. Para um clube com estas características e dimensão é chave apostar na formação. Por seu turno, há muito que se anuncia a reconciliação entre a Briosa e os estudantes da Academia. A verdade é que os números de “capas e batinas” presentes nos jogos não correspondem à anunciada vontade das partes. É tempo para esse relevantíssimo passo. Não se garante apenas o estímulo presente - mais importante – acautela-se o futuro!

Finalmente, no decurso da presente época terá desfecho o processo judicial que envolve o Presidente da Briosa. Torcemos pela respectiva absolvição, também para que se não produzam efeitos colaterais.

Venha a bola, que estamos ansiosos por começar com o pé direito na Luz a 15 de Agosto. Não poderia haver melhor tiro de partida!

TIC e TURISMO



O Verão é sinónimo de férias. As novas tecnologias estão a mudar radicalmente o comportamento dos turistas e a forma como organizam as respectivas pausas para repouso, recreio ou lazer.

Hoje em dia, antes de sairmos de casa já conhecemos detalhadamente o nosso destino: visitamos museus virtuais, degustamos os segredos gastronómicos locais, descobrimos o hotel mais charmoso... E, o mais interessante é que alcançamos tudo isto sem ter contacto com operadores turisticos.

Cada um de nós é produtor activo de conteúdos que disponibilzamos (com gosto e vaidade) na internet: seja com a publicação da foto do Taj Mahal no Facebook, a menção ao melhor Sushi de São Paulo no TripAdvisor ou ao registar o melhor salto de “bungee jumping”no Bing Maps.

Para se ter ideia da imensa proactividade e produtividade relativa às opções de viagens de cada um o TripAdvisor é um bom exemplo: 46 milhões de visitantes únicos por mês dos quais 15 milhões estão registados e são feitos 22 apontamentos por minuto sobre hotéis, restaurantes e outros. Impressionante!

Mas alcançaríamos números idênticos se analisássemos sites de GPS, aplicações para busca de restaurantes e guias virtuais. Para quê andarmos com a mochila cheia de papel se o nosso telemóvel pode carregar gigas de informação?..Acessível a todo o instante e apenas num clique.

Por tudo isto, deixámos de nos deslocar a agências de viagens, de frequentar feiras de turismo e, sobretudo, de estar nas mãos dos operadores, porquanto agora a concorrência elevada impõe preços mais baixos. Em suma, mudou o modelo de negócio.

O turismo é o sector de actividade onde a internet gerou os maiores impactos e mudanças mais relevantes. Actualmente, as vendas “on line” de passagens áreas, estadias e pacotes superam já as efectuadas no modelo clássico. Ainda assim há quem não tenha percebido...e num país como o nosso, como um peso turístico tão elevado no PIB, é grave!

Publicado no Jornal OJE

terça-feira, 22 de junho de 2010

DE BESTIAL A BESTA!



Saramago passou de besta a bestial em poucas horas após o falecimento. O habitual neste cantinho à beira-mar plantado... As vendas dos seus livros aumentaram dez (10) vezes em 48 horas. Arriscaria dizer que muitos comentaram publicamente a morte sem nunca lhe terem lido uma linha...talvez os mesmos que o criticaram ferozmente em vida.

Saramago era polémico. Tinha opinião e pensava em alta voz. Tinha coragem. Tudo isto é bom e faz falta. Não agradar a todos era o preço normal a pagar por tamanha ousadia. Que importa?

Pior que a frontalidade excessiva e a conflitualidade assumida de uns (entre os quais Saramago) é a hipocrisia e o fariseísmo de outros (tantos com foto publicada nestes últimos dias...).

Incomoda-me profundamente que na morte se levante o coro das homenagens e das ossanas póstumas, sobretudo quando em vida se ostraciza, despreza ou critica injustamente o homenageado.

Saramago pensava o país. Desejava um outro país. Sobretudo porque o observava de fora e essa distância dava-lhe uma perspectiva contundente mas tantas vezes realista. Por isso mesmo uma das suas intervenções mais polémicas terá sido quando defendeu a “unificação” de Portugal e de Espanha.

Saramago vivia, em casa, uma união do coração com a Espanha. A mais forte e indelével. Daí a pensar num espaço ibérico único foi um pequeno passo. Quando há três anos afirmou essa perspectiva ainda se vivia a euforia do crescimento. Hoje, em crise, fica mais claro que a Europa não responde aos nossos problemas e que a associação cultural e económica de Portugal e Espanha se apresenta como uma solução interessante. Antero de Quental no século XIX já o havia defendido... Têm ambos razão do meu ponto de vista.

Goste-se ou não do estilo literário de Saramago, da sua visão política das coisas e do Mundo e da sua postura social, a verdade é que ficará para sempre como protagonista da nossa história. Mais, como símbolo das letras mundiais.

E nós que precisamos de tantos símbolos, sobretudo vivos!..

segunda-feira, 21 de junho de 2010

DEMOCRACIA DIGITAL LI



Há um sem-número de “best-sellers” e as conferências sucedem-se sobre como vender através do Facebook, encontrar emprego no Linkedin, casar no Twitter, ser feliz no Hi5, etc etc.

O que aqui vos exponho é o relato fiel de uma experiência pessoal passada recentemente.

Quem não tem uma estória para contar com um serviço ou linha de apoio ao cliente que atire a primeira pedra?.. Todos, arriscaria a dizer sem excepção, já esperámos horas por um atendimento telefónico; já nos indignámos perante a chamada urgente que do “outro lado” apenas tem por interlocutor um máquina; já “trepámos paredes” com a chamada que cai – depois de minutos infinitos de espera – sem que o operador nos devolva a chamada apesar de saber bem quem somos...Daria para escrever um livro (se já não existe) sobre o pesadelo das linhas de atendimento.

Em suma, o relacionamento comercial entre empresas e clientes, estados e cidadãos passa cada vez mais por mecanismos não presenciais, logo alternativos aos modelos clássicos.

Por isso mesmo os “call centers” são dos negócios mais rentáveis e emergentes do momento.
A TAP é um caso paradigmático de mau funcionamento da sua linha de apoio (?) ao cliente, dando da empresa uma manifesta má imagem e gerando uma danosa percepção pública.

Ora, sucede que a TAP está (inelutavelmente) presente no Facebook. Usei esta via para tentar resolver um problema urgente que não tinha conseguido pela forma dita-normal no 707 blá blá blá. O problema resolveu-se em tempo adequado e de forma civilizada.

Ao contrário da chamada telefónica em que há uma relação sigilosa de 1:1, no Facebook os 17.930 “amigos” da TAP puderam acompanhar o caso que apresentei: a crítica e o descontentamento. E, no final, a minha satisfação. Imagine-se o impacto na imagem da TAP e no valor da marca se as más experiências se sucederem!...Está aqui o poder das redes sociais.

PUBLICADO NO JORNAL OJE

quinta-feira, 17 de junho de 2010

LA RED INNOVA 2010 MADRID



Participação na Conferência Red Innova, em Madrid, dia 15 de Junho, para falar sobre Cloud Computing.

JÁ NÃO HÁ MILAGRES



O presente texto é escrito exactamente após o empate com a Costa do Marfim. Esse facto dá-me a vantagem de já saber o resultado. Apesar de tudo, não pude ver o jogo, por isso mesmo não me pronunciarei sobre a performance desportiva. Não sei se jogaram bem ou mal, mas para o caso é irrelevante. Asseguro, todavia, que aquilo que aqui deixar registado já o tinha em mente antes mesmo de saber do malfadado empate.

Feito o esclarecimento inicial, entremos então no tema. Há que distinguir, desde logo, duas coisas: o que gostaríamos que sucedesse não coincide (infelizmente) com o que regra geral acontece.

Portugal tem alguns dos melhores jogadores do Mundo, mas não tem um colectivo forte. O total nem sempre é igual à soma das partes. Seria importante perceber por que motivo a performance de Ronaldo, Simão e Liedson (por exemplo) na selecção nunca é tão boa quanto a que têm nos clubes respectivos. Alguém na FPF já se fez essa pergunta?.. Creio que essa seria a questão-chave para muitas das nossas apreensões e para o “credo na boca” dos últimos anos. A segunda pergunta tem que ver com o modelo organizativo que a FPF afecta à selecção: é a preparação para as grandes provas feita adequadamente?.. A terceira pergunta assenta como uma luva no treinador: sem pré-juízos, será Carlos Queiróz o melhor treinador para a selecção?... Estas e outras questões deveriam ser, sem peias, levantadas, pois creio sinceramente que há muito se insistem nos mesmos modelos, nas mesmas pessoas e nas mesmas estratégias para os lados da FPF. E os resultados comecam a aparecer.

Acresce, que com Scolari – mérito absoluto e exclusivo dele! – o país envolveu-se e abraçou a selecção nacional. O movimento das bandeiras foi notável e a alegria contagiante um momento para recordar sempre. Hoje, o nosso povo (com excepção dos emigrantes lusos na África do Sul) está muito apartado dos 12. Aliás, logo na Covilhã se multiplicaram as críticas pelo distanciamento que Queiróz imprimiu!...

Curiosamente, hoje, muito mais do que no Europeu de 2004 e no Mundial de 2006, o país precisa como de “pão para a boca” dos bons resultados da selecção, da alegria contagiante do futebol e da unidade nacional reforçada para subir os baixos níveis de confiança e auto-estima. A crise não tem de ser uma inevitabilidade e muito menos arrastar-se aos campos de futebol.

De regresso à África do Sul apenas para dizer que não tenho grande “fezada” nesta selecção. Creio que não passaremos da segunda-fase. Já não há milagres!

Enfim: temo que para história fique apenas o desconfortável ruído das vuvuzelas e mais uma oportunidade perdida...

DÉJÀ VU



A polémica gerada em torno do encerramento de algumas escolas no país é em tudo idêntica à que vivemos no passado recente por causa do fecho de maternidades. Um “déjà vu”, portanto. E isto sucede sobretudo porque o governo foi, uma vez mais, incapaz de comunicar e explicar o respectivo plano.

No meu entender, a questão central não é o encerramento em si, mas as razões que consubstanciam essa decisão. Vejamos então: são apenas motivos economicistas e orçamentais (o que já não seria pouco) ou há causas mais profundas (no caso das escolas de ordem pedagógica e no das maternidades de ordem clínica)?.. Em todo o caso, as razões pedagógicas são as mais relevantes no tema em apreço.

Fechar uma escola e transferir os alunos para outra mais distante e com iguais condições físicas e pedagógicas é um erro. Pior: injustificável. A mudança tem que trazer vantagens evidentes para os jovens: melhores condições de aprendizagem, melhores instalações, um ambiente multicultural e professores mais motivados por exemplo. Se estas foram as justificações do governo para tal decisão, logo, qualquer família sensata compreenderia a necessidade de mudança. Mas foram mesmo?..Não se percebeu.

Por outro lado, este tipo de decisões não podem ser “cegas” e tomadas por decreto do alto da “5 de Outubro”, isto é, sem atender casuisticamente a cada situação concreta. Há casos em que a escola é o único pólo vivo da aldeia ou vila ou em que a mudança dos alunos os distancia exageradamente das famílias sem vantagens pedagógicas. Não deve decidir-se sem olhar com ponderação para todos os factores.

Para situações complexas que geram forte impacto social como estas mandaria a prudência que se envolvesse na decisão o maior número de “stakeolders”: os municípios, os representantes dos pais e dos professores. Não o fazendo fica o decisor mais exposto...

É, claro, muito mais fácil, demagógico e populista estar contra este tipo de decisões e instrumentalizar as vontades populares. Aliás, recordemos as manifestações que então pediram a cabeça do Ministro Correia de Campos...e conseguiram. Vejamos o que acontece à da Ministra da Educação...

ATAVISMO SINDICAL



“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Mas será que mudam mesmo?...
Diria que a tecnologia avançou nas últimas décadas como nunca; que a medicina e a ciência oferecem hoje respostas inimagináveis para perguntas que há anos atrás pensávamos meramente retóricas; o Homem pisou a Lua e nos dias que correm organizam-se excursões para que outros o façam. Enfim, há um movimento perpétuo que comanda a vida.

Todavia, há coisas que parecem não mudar: as organizações sindicais continuam a obedecer às mesmas lógicas seculares e em busca dos mesmos objectivos. Quais sejam?..

Os sindicatos vivem da “luta” e da conflitualidade. A paz social não serve aos sindicalistas. A concertação social esgota a razão de ser do sindicalismo. Ou seja, as manifestações e as greves são legítimas (e constitucionalmente plasmadas) formas de expressão e de reivindicação laboral.

A história obriga-nos a respeitar o papel dos sindicatos e de muitos heróis sindicalistas na luta pelos direitos de quem trabalha. O bom-senso impõe-nos que salvaguardemos sempre a dignidade constitucional do sindicalismo. Porém, o patriotismo moderno deveria obrigar a repensar o contributo dos sindicatos para o bem colectivo.

Dito de outro modo: no estado actual da nossa economia e perante a grave crise que estamos a viver de que modo greves gerais, manifestações sucessivas e instabildade social ajudará à recuperação? Como pode o discurso agressivo e de agitação social propalado pelos líderes sindicais promover o aumento de produtividade?

As respostas a estas questões são óbvias: na rua não se alcançarão, nesta fase da nossa existência crítica, soluções úteis, nacionais e patrióticas. Não se salvará um posto de trabalho com mais greves. Não se exportará mais com manifestações sucessivas. Não obteremos mais crédito externo com conflitos nas ruas.

Este é um tempo diferente. Mudou muita coisa. Mudaram as relações de trabalho. Mudaram as organizações dos mercados. Mudaram as qualificações dos trabalhadores. E os sindicatos mudaram?...

Mais grave: é sabido e aceite que os sindicatos estão intimimamente ligados a forças partidárias e muitas vezes dependentes da agenda desses partidos e não dos interesses dos sindicalizados. Há uma perversão na forma como os sindicatos organizam a respectiva acção, sobretudo porque assente em gente mais desprotegida e, por isso mesmo, disponível para tudo...

É tempo de mudar. É tempo de acabar com o atavismo sindical. Esta crise é também uma oportunidade para quem diz ser representante dos interesses dos trabalhadores.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

TUDO BONS RAPAZES!



Em Madrid, um português confirma-se como o melhor treinador do Mundo no mesmo espaço onde evolui o melhor jogador do Mundo, por sinal, também português.

Ao mesmo tempo, em Lisboa, a bolsa de valores afunda-se, os sindicatos ameaçam greves gerais e sucedem-se as ameaças de intervenção externa na condução do nosso destino.

Em simultâneo, na Covilhã, os escolhidos por Queiróz cavam o fosso que os separa dos adeptos. As exibições não inspiram e a empatia não abunda. A esperança é apenas o nome de um cabo...

Paradoxos evidentes que vale a pena analisar.

Por que motivo o mesmo país que dá ao Mundo o melhor jogador e o melhor treinador aparece tantas vezes como o pior? Por que razão os exemplos de portugueses que se afirmam no Mundo como líderes cresce e dentro de portas a liderança é palavra madrasta? Por que diabo a competência e as qualificações dos portugueses são enaltecidas pelo Mundo fora e em Portugal não sao factores distintivos? Estas são as questões de fundo que os exemplos acima ajudam a iluminar. Para mal dos nossos pecados...

Atentemos, pois, nos motivos que levam José Mourinho a querer ir para o Real Madrid: porque vai ganhar muito dinheiro? Não. Porque gostaria de viver em Madrid? Não. Porque em Madrid a tarefa seria mais fácil? Não. Mourinho quer ir para o Real pelas razões inversas que tipicamente presidem às opções em Portugal.

Mourinho recusa o facilitismo e a previsibilidade. Mourinho é ambicioso, por isso gosta dos desafios mais difíceis. Quer ser o único a ganhar todas as provas nos três campeonatos mais importantes da europa (e do Mundo). Mourinho tem uma missão. Não tenho dúvida das competências e da obstinação de Mourinho para atingir o desiderato máximo.

Ora, a Portugal falta um desígnio. Uma missão. Falta um denominador comum, por isso todas as estratégias acabam por ser errantes e os resultados estão à vista há muitos anos...

Moral da história: Mourinho nunca gostou do nacional porreirismo e nunca escolheu jogar com bons rapazes. Não! Mourinho sempre jogou com os melhores, só com os melhores (mesmo quando incomodovam...), por isso venceu. Portugal está no momento-chave para optar: para ganharmos temos de buscar e promover os melhores. Este já não é o tempo dos bons rapazes...

terça-feira, 25 de maio de 2010

DEMOCRACIA DIGITAL XLIX



Hoje, cruzei-me com esta frase: “Se crês que a excelência é cara, espera pela factura da mediocridade”. Pensei de imediato no estado em que nos encontramos enquanto país. Não importa olhar mais pelo retrovisor e buscar a causa das coisas, menos ainda os responsáveis. A hora é de levantar a cabeça e olhar em frente.

A palavra de ordem é poupar e reduzir custos. Pois bem de que modo podem as novas tecnologias ajudar nesse desiderato? Muito! Sem dúvida, imenso.

Quando decisores públicos - e empresários - precisam de obter resultados tangíveis e valor acrescentado por cada euro investido a tecnologia pode ser determinante.
Desde logo, é imprescindível uma reorganização da infra-estrutura tcenológica do Estado. Faz sentido cada departamento ministerial ter o seu próprio “data center”? Não. É ajustado alimentar uma dispersão geográfica de recursos tecnológicos cuja redundância não é racional nem eficaz? Não. É adequado pensar-se que em cada ministério se fazem opções por modelos tecnológicos que as mais das vezes não falam entre si? Não.

Ora este cenário traz consigo um desperdício consubstanciado em despesas com servidores, storage e rede redundante; além de ineficiente utilização de espaço, potência e recursos de TI.

Este é o tempo ideal para mudar. As crises geram oportunidades. O governo português, à
semelhança de tantos outros no Mundo, deveria concentrar os respectivos dados e informação no número mínimo de “data centers” e, assim, criar a sua própria Government Private Cloud. Este seria o primeiro (grande) passo imprescindível para a redução de custos e aumento da eficiência tecnológica do Estado, salvaguardando a confiencialidade, a soberania e a independência dos dados e aplicações.

PUBLICADO NO JORNAL OJE

quinta-feira, 20 de maio de 2010

HAJA ESPERANÇA!

O jornal espanhol “El Pais” na sua edição desta segunda-feira referia que o plano do governo para atacar a crise significava que se teria apagado a última luz ao fundo do túnel! Impressionante a imagem, sobretudo se pensarmos que a Espanha há apenas dois anos tinha a maior taxa de crescimento da UE!

Quero acreditar que ainda há esperança para todos nós!

Mas para compreender a actual crise e a possibilidade dela sair costumo fazer o seguinte exercício: um dado agregado familiar tem como receitas mensais, provindas da remuneração do trabalho e de algum capital, um dado valor. Esta mesma família regista como custos certos mensais – em empréstimos, despesas correntes com electricidade, água, gás, alimentação, escolas,... – um valor superior ao globalmente recebido. Acresce, que – e apesar do diferencial negativo – cogita ainda ir de férias para o Caribe, nem que para o efeito recorra ao crédito ao consumo.

Ora, este é o cenário em que vivem milhares de famílias portuguesas. Esta é a situação dramática em que mergulharam nos últimos anos muitos concidadãos nossos animados por um aparente crescimento global e por uma mensagem de confiança de um mercado que hoje se sabe desregulado e especulativo.

Afinal de contas, o drama de muitos portugueses é também a desastrosa realidade do país no seu todo, enquanto Estado. Esta situação incomóda-me e muito, pois não estou entre os insolventes, tenho as minhas obrigações fiscais em dia e nunca usufruí das contribuições sociais. Por que motivo agora tenho de pagar mais impostos directos e indirectos?!

A minha indignação só pode ter uma resposta: a crise resolve-se forçosamente pela redução da despesas pública muito mais do que pelo agravamento fiscal e pelo estrangulamento de empresas geradoras de riqueza ou reduzindo o rendimento disponível das famílias indutor de consumo.

Não sou economista, devo dizê-lo. Mas também não preciso de sê-lo para compreender bem o que haveria de ser feito no caso do exemplo familiar acima referido. O futuro e o equilibrio daquele agregado passa forçosamente por afastar a possibilidade de férias no Caribe este ano e possivelmente nos próximos, não contraindo assim mais empréstimos para bens/serviços que são dispensáveis. Por outro lado, se a família vir aumentada a carga fiscal dos rendimentos do trabalho e o IVA fica necessariamente com menos disponibilidade para o essencial, logo não melhora em nada a respectiva situação. Só existe pois outra forma de viver melhor: reduzir os consumos supérfluos e seleccionar criteriosamente onde aplicar o dinheiro disponível na exacta medida do que recebe e não do que tem por via de compromissos com terceiros.

Em suma, entre esta família e o nosso Estado não existem – grosso modo – muitas diferenças no problema e na solução.

Não tenho dúvida de que se devem equacionar todos os compromissos com aquilo que não é estratégico (educação, competitividade, internacionalização e inovação) e racionalizar o Estado à medida das necessidades actuais. Com certeza temos ainda muita gordura por onde cortar antes de entrar na alma do povo. Haja esperança.

DEMOCRACIA DIGITAL XLVIII



É impressionante a velocidade a que o Mundo está a mudar! No próximo ano a China passará a ser o maior mercado de computadores, ultrapassando os Estados Unidos.

O que é que isto significa? Muito. Os comportamentos sociais adaptar-se-ão rapidamente à profusa rede tecnológica. Do ponto de vista político o regime fechado sobre si próprio acabará por se abrir e um novo paradigma cívico surgirá.

Economicamente falando o consumo de tecnologia aumentará de tal modo que as oportunidades não serão apenas internas mas sobretudo externas. Não menos relevante: a língua chinesa vai adquirir maior importância estratégica.

Em suma, o Ocidente tem, cada vez mais, os olhos postos no “Tigre”, que é cada vez menos de “papel”. A crise económica e social em que a Europa e os Estados Unidos mergulharam – e de onde apenas vão saindo paulatinamente – apresenta-se como o contexto adequado para governos e empresas orientarem as respectiva estratégias políticas e comerciais para a China.

Aquilo que alguns ainda teimam em apelidar de países emergentes (BRIC) são hoje uma evidência e a confirmação de crescimento e desenvolvimento. As grandes oportunidades estão lá! “By the way” o Brasil será a partir do próximo ano o terceiro mercado mundial de computadores!

Observada esta (inelutável) tendência a partir do nosso rectângulo, resta perceber friamente o que estamos a fazer? Infelizmente muito pouco ainda. Não nos resta alternativa que não seja adquirir maior agressividade diplomática, melhor estratégia comercial e envolver os melhores protagonistas!

terça-feira, 4 de maio de 2010

A SÍNDROME DO BLOCO CENTRAL



É comum ouvir-se a designação “Bloco Central” para diabolizar convergências e coligações de interesses políticos em Portugal. A carga perversa é tamanha que quando se quer ser ofensivo fala-se no dito bloco. Sobretudo corre facilmente na boca de uma certa esquerda e de alguns fazedores de opinião...

Ora, a verdade é que a maioria dos portugueses se questionados em concreto sobre tal período da nossa história contemporânea dificilmente – aposto – saberão descrever o que houve de tão negativo.

Mas, enfim, serve isto para dizer que, em Portugal, incompreensivelmente se foge dos acordos políticos “como o diabo da cruz”!

Atente-se no facto (esdrúxulo, digo eu) de sermos o único país europeu com um governo minoritário. Os demais vivem com maiorias absolutas ou convivem com coligações governamentais ou parlamentares. Ora, acho que isto diz tudo sobre a nossa forma política (complexada e irresponsável) de encarar o interesse público.

Durante o final do consulado de Ferreira Leite usavam-se as diferenças insuperáveis de personalidade para justificar a impossibilidade de “casar” PS e PSD. Parece-me, salvo erro, desculpa de mau pagador. Afinal de contas, a situação de excepção do país deveria levar ao mais apurado sentido de estado. A verdade é que Passos Coelho intepretou bem essa necessidade. Resta saber se de forma táctica ou estratégica. Não são uma e a mesma coisa!

Depois de um encontro recente em São Bento, as análises surgiram só em torno do superficial: Sócrates e Passos Coelho jogam à política; um faz do outro um “Homem de Estado”, etc etc. Ora, infelizmente o tempo corre contra nós e por isso mesmo o relevante seria rapidamente perceber que apenas uma definição de um quadro de políticas comuns pode salvar o país. PS e PSD estão condenados a entender-se nos tempos vindouros, de outro modo será desastroso!

É pena não podermos falar noutros partidos, sobretudo à esquerda, mas a verdade é que sempre se colocam à margem do “arco da governabilidade”. Há quem prefira debater nas ruas e priviligie as greves à produtividade, pelo que não resta grande espaço para os que se põem de fora...num (estranho) instinto de sobrevivência.

Já é tempo de quem decide superar o estigma do “Bloco Central” – seja lá o que isso pode significar – e sentar-se à mesa com quem pode dar uma maioria para a governabilidade do país: única forma de executar o famigerado PEC.

De outro modo, o governo anuncia cortes na despesa pública às quintas e a oposição aprova mais custos no parlamento às sextas...Este não é seguramente o caminho.

sábado, 1 de maio de 2010

DEMOCRACIA DIGITAL XLVII


Obama tem como objectivo colocar os Estados Unidos como a nação com maior número de licenciados do Mundo em 2020. Este é o propósito essencial da sua política educativa.

“Commencement Challenge” é o mais recente desafio lançado pela Casa Branca no seu sítio aos internautas americanos. Basicamente consiste num exercício de selecção na net de uma universidade para o Presidente Barack Obama visitar na cerimónia de entrega dos diplomas (graduation).

Cerca de mil instituições académicas apresentaram as respectivas candidaturas e, agora, é a vez de entre as seis finalistas ser seleccionada a vencedora em função do respectivo contributo para liderar pelo exemplo, pelo envolvimento dos alunos e professores num modelo educativo de sucesso e pela estratégia para a excelência.

Ideias simples podem gerar resultados impressionantes. A adesão das universidades a receber a visita de Obama é disso um exemplo, mas mais impactante são os vídeos de 3 minutos que cada uma produziu para demonstrar o seu compromisso com o objectivo de Obama para 2020.

Por estes dias milhões de americanos usam o site oficial da Casa Branca para votar. O efeito agregador da internet e o compromisso político de maior participação estão assim garantidos.

Este é apenas mais um exemplo de sucesso na comunicação da Casa Branca entre outros já usados, donde destacaria a campanha individualizada (junto de cada internauta registado) para explicar e promover a decisão de criar um verdadeiro Sistema Nacional de Saúde, recentemente aprovado depois de ter as opiniões pública e publicada do seu lado.

A internet mudou muita coisa. Uma das mais impressionantes transformações é ter a memória à distância de um clic. Obama ganhou com as novas tecnologias. Sabe bem isso, e os americanos também, pelo que continua a governar através delas. Assim outros soubessem fazê-lo deste lado do Atlântico. É tão simples...

terça-feira, 27 de abril de 2010

NÃO BASTA PEDIR PERDÃO!


A Igreja católica vive porventura uma das suas crises mais profundas. À crise das vocações juntam-se os sucessivos escândalos em torno da pedofilia e dos abusos sexuais nas mais diversas geografias. Raro o dia em que não surge uma triste notícia associada ao clero.

O actual Papa tem a sua imagem pessoal inelutavelmente ligada a um conservadorismo retrógrado, ao puritanismo farisaico e ao encerramento da Igreja sobre si própria. Era assim antes de haver fumo branco, confirmou-se, pelas piores razões, depois.
Em tempo de crise económica e social era importante a existência de uma Igreja diferente. Forte e inatacável. Um baluarte de princípios éticos, morais e humanos inquestionavelmente dignos. Lamentavelmente assim não é. E nao basta pedir perdão!..

Afinal a Igreja, por muito que custe a alguns, é feita de homens e por isso mesmo passível de erros. Normal, não fora o facto de os tentar historicamente encobrir, tipo “vícios privados, públicas virtudes”.

Acresce, que o pior erro da Igreja Católica – que assim permite o crescimento desmesurado de todo o tipo de seitas – é o desafasamento face aos desafios dos nossos dias. Falta-lhe respostas para muitos dos nossos problemas. Está cada vez mais distante das pessoas.

Longe vão os tempos de um João Paulo II que atria multidões, ajudava a derrubar muros e ia mais além na Solidariedade.

É nesta circunstância que a visita do Papa Bento XVI a Portugal ocorre. Não podemos mascarar a realidade e ir para a rua apenas cantar ossanas. Razão ao alto e reflexão profunda.

Já que no plano do intangível estamos entendidos, pelo menos que esta visita sirva para dinamizar a nossa economia local. Fala-se em “cluster religioso” – curiosa associação da economia à crença – em torno de Fátima, pois então que a incompreensível tolerância de ponto permita ao menos aos crentes consumirem até à exaustão.

Pena é que este país seja o mesmo que não recebeu oficialmente o Dalai Lama, cuja postura está associada à Paz e à Harmonia!

DEMOCRACIA DIGITAL XLVI



O futebol transformou-se há muito numa das mais rentáveis indústrias do Mundo. Apesar dos históricos passivos dos clubes, a verdade é que as verbas envolvidas em direitos de transmissões televisivas, patrocínios e “merchandising” são colossais.

Não por acaso as estrelas de futebol são disputadas para o lançamento de produtos ou serviços, campanha sociais ou apoios políticos...

De acordo com previsões recentes oito em cada dez pessoas no Mundo seguirão o próximo Mundial de Futebol na África do Sul pelas diversos canais de comunicação. Impressionante.

A internet é, hoje, um espaço de eleição altamente disputado para promoção de mensagens publicitárias. O próximo Mundial vai trazer consigo formas inovadoras de comunicação. Nos noventa minutos da partida jogar-se-á muito fora das quatro linhas: o marketing viral apropriar-se-á das plataformas mais reconhecidas da web (MSN, Youtube, Facebook,Twitter...).

Pela primeira vez os próprios atletas poderão comunicar-se directamente com adeptos e fãs, todos potenciais consumidores de futebol em sentido lato, através das redes sociais. Por exemplo, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) autorizou os jogadores “canarinhos” a usar o Twitter. Imaginemos pois o impacto tremendo junto do grande público. É revolucionário o modo como os atletas passarão a relacionar-se com as audiências e como estas se comunicam com os seus ídolos. Claro está que em cada canto uma marca espera a oportunidade para se envolver – de modo mais explícito ou implícito – neste fluxo.

A digitalização dos relacionamentos sociais chega ao futebol com o próximo Mundial de forma incontornável, assente, sobretudo, na vantagem (por vezes virtual...) de estabelecer relações directas entre as estrelas e os adeptos. As paixões despertadas pelo “desporto-rei” ajudam a criar um caldo propício à promoção de mensagens publicitárias. Assim os governos e as ONG´s saibam aproveitar também este ambiente!

Publicado no JORNAL OJE

sexta-feira, 16 de abril de 2010

DEMOCRACIA DIGITAL XLV




“Publico, logo existo!” - este bem poderia ser o lema da comunidade científica portuguesa...
O número de publicações científicas por milhão de habitantes em Portugal cresceu nos últimos anos 68%. O número de doutoramentos também aumentou 50%. Muito importante, sem dúvida. Mas mais relevante é aferir o impacto na economia real dessa produção intelectual. Os dados bibliométricos são interessantes, mas quantas empresas de base tecnológica dali emergiram? E quantas exportam? E qual o respectivo peso no PIB?...Estas são as questões que devemos colocar a todo tempo.

Por outro lado a disponibilização na internet da informação resultante dessas investigações – em condições de poder ser entendida e aproveitada – é uma lacuna evidente.
Precisamos de mais exemplos pioneiros como o do “Vital Jacket” - uma camisola que tem incorporado um dispositivo electrónico e vários sensores que captam os sinais vitais da pessoa que a veste e pode monitorizar o ritmo cardíaco. Este projecto resultou de uma parceria perfeita entre a Universidade, o sector empresarial e os profissionais de saúde. Esta multidisciplinaridade deu vida a um “paper” gerando um produto único no Mundo.
Em valores relativos o número de empresas com actividades de I&D duplicou nos últimos anos, assim como o número de investigadores nelas presentes. Esforço privado digno de registo.

Há ainda, e apesar de tudo, um afastamento entre o universo científico e as empresas portuguesas. As universidades continuam muito viradas para dentro e para a elaboração de saber, que não significa necessariamente conhecimento nem riqueza nacional. A conversão dos “papers” em projectos concretos, em “start ups” e em riqueza material é uma prioridade estratégica para o país, sob pena de se perderem demasiadas oportunidades e...muitos recursos públicos.

Publicado no Jornal OJE

quinta-feira, 15 de abril de 2010

PORTUGAL 2.0



Um estudo do IDC – entidade mundialmente reconhecida no sector das tecnologias da informação – demonstra que dentro de apenas cinco anos 85% dos empregos exigirão competências tecnológicas. Dito de outro modo, os remanescentes 15% serão tarefas próprias de analfabetos digitais. Pouco promissoras, portanto...

Em 2020 um terço da população europeia terá mais de 65 anos e em 2050 na europa seremos apenas 5,5% da população mundial. Portugal reflecte esta exacta tendência. Isto significa de modo muito prosaico que seremos menos que os outros e muito mais envelhecidos. Imaginem-se pois os impactos sociais, económicos e culturais de tal situação...

Os dados acima referidos seriam suficientes para compreender a real importância de Portugal desenhar uma nova agenda digital. Digo nova, porquanto o nosso país é, hoje, considerado uma estrela mundial em alguns domínios da tecnologia por força do relevante Plano Tecnológico definido pelo anterior governo de Sócrates.

Diversos rankings internacionais demonstram que Portugal ascendeu a posições cimeiras quanto à penetração de banda larga (em espaços urbanos e rurais, em todas as escolas públicas,...), ao governo electrónico (relação dos cidadãos com a Administração Pública por via das novas tecnologias), aos “e-skills” para quais os programas “e-escolas”, “Magalhães” e “Novas Oportunidades” foram determinantes. O rol é imenso e poderia prosseguir com exemplos.

Ora, perante a crise económica que vivemos e face aos parcos recursos naturais do país não nos resta grande alternativa que não seja apostar muito forte nas competências das pessoas, na “massa crítica” nacional e, por via disso, identificar alguns “clusters” onde possamos fazer a diferença no Mundo, confirmando a tendência positiva da nossa balança tecnológica e internacionalizando a economia nacional.

Somos o país que criou a “Via Verde”, o “cartão pré-pago” para telemóveis, que tem o primeiro nível de ensino com a ratio de computador/aluno mais elevada do mundo, etc, etc. Estes factos são dignos de registo e devem pois orgulhar-nos. Mas não de modo a que a satisfação nos adormeça, pois a tecnologia é apenas um meio e nunca um fim em si mesmo.

Sermos uma “smart nation”, conforme ouvi ao professor Tribolet, é um imperativo, mais que uma opção. Só assim conseguiremos aproveitar a enrgia de uma população envelhecida que não significa necessariamente inerte ou incapaz.

Publicado no Diário As Beiras.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

DEMOCRACIA DIGITAL XLIV



Com o lançamento do IPAD (Apple) regressaram os debates em torno do futuro dos livros e da imprensa escrita. De um lado, os que advogam que agora é inelutável o desaparecimento da versão impressa; do outro, os que – como eu, confesso – apreciam os avanços tecnológicos, mas não sucumbem às modas.

O ritual das leituras matinais com o cheiro a tinta bem vivo, o ruído próprio do folhear e a negritude na ponta dos dedos (que nem o alarmismo da Gripe A conseguiu abolir) é algo que não pretendo dispensar.

É certo que se podem reduzir os custos de produção, sobretudo os de distribuição pois que tudo fica ao alcance de um clic na internet, mas nem por isso uma mera tendência se imporá a séculos de leitura física.

A forma como editores e empresas de media estão a reagir ao IPAD demonstra uma certa indefinição no modelo de negócio. Há os que vendem as edições electrónicas mais caras que as impressas (por exemplo a TIME e o Wall Street Journal) outros que optam pelo modelo “free” assente em publcidade e patrocínios (Financial Times, por ex.).

Daqui resulta que a indústria literária e de produção de conteúdos ainda apalpa terreno para perceber o modo como os gostos dos consumidores e leitores vão evoluir.

O problema não está na tecnologia – que aliás facilita o acesso aos conteúdos, nunca como hoje se leu tanto – mas nas mudanças que a mesma impõe aos modelos organizativos e empresariais. Com blogues a publicar informação, quem produz factos a colocá-los no respectivo sitio da net, com autores a disponibilizarem as obras nas respectivas páginas pessoais como consegue sobreviver uma indústria editorial e de imprensa?.. Essa é a questão de fundo, que anda encoberta pela publicidade como paneceia...que não o é.

Publicado no Jornal OJE

terça-feira, 6 de abril de 2010

CONTRA-CORRENTE



Gosto de andar contra-corrente. Irritam-me as manadas, sobretudo quando as opiniões se juntam por questões de oportunismo e de populismo. Ainda assim – mesmo discordando – respeito a opção diversa. Espero que o mesmo suceda relativamente ao aqui plasmado.

Tem ultimamente gerado muito ruído o tema das remunerações e dos prémios dos gestores. É fácil deixar-se enlevar pelos capciosos argumentos de que em tempo de crise ou comem todos ou não há moralidade. Vai daí e corta-se a eito.

Não existe aqui um fundo ideológico. A demagogia não é de esquerda nem de direita, veja-se aliás donde saem – regra geral – os apelos... Estes são os mesmos que acham que os políticos ganham muito, que os juizes são uns bandalhos, que os professores não fazem puto e que os médicos são os privilegiados do costume. Assusta-me que o país, subitamente, pareça concordar com tudo isto!..

Identifico facilmente alguns erros no que tenho lido e ouvido sobre a polémica dos salários dos gestores:

Primeiro erro: generalizar. Nem todos os gestores são iguais. É perigoso achar que sim. As habilidades e competências variam; os sectores de actividade também e, finalmente, os resultados devem ser levados em linha de conta.

Decidir cegamente cortar com prémios, variáveis e bónus sem ter em consideração a diversidade pode ser um tiro na culatra. No meio da enxurrada vão os bons. Além disso, há casos onde o Estado tem uma palavra a dizer, outros onde nem deve opinar.

Segundo erro: depreciar o mérito. Está provado que os estímulos servem para a obtenção de melhores performances e que dos esquemas de mérito sempre faz parte o prémio. Uniformizar à partida e não distinguir à chegada é pressuposto de um modelo que ruiu há uns anos e cujos resultados não deixam saudades. Recuperar estes modelos em tempo de crise não augura nada de bom!

Terceiro erro: nivelar por baixo. Tratar realidades distintas do mesmo modo é meio caminho para o erro e para o insucesso. Pagar o mesmo a todos independentemente dos resultados é uma não solução, que agradará a medíocres que não ambicionam, não sonham, não suam nem exigem!

Quarto erro: deprezar a mobilidade. Muitos dos gestores que são bem sucedidos em Portugal conseguem sê-lo em qualquer parte do Mundo, por isso mesmo a globalização está a provocar um êxodo de talento nacional. As gerações mais novas não estão para este nível de exposição, que num país tão pequeno tem um preço mais elevado.

Quinto erro: confundir custo com benefício. No meu entender, a distribuição equitativa da riqueza faz-se através da tributação fiscal dos salários, prémios e bonificações dos gestores devolvendo “à sociedade” parte daqueles benefícios permitindo que outros possam deles usufruir. O contrário é mesquinhez e inveja pequenina.

Finalmente, o caso de António Mexia e da EDP, que tanta gente se apressou a comentar e a qualificar, merece uma análise especial por todos os outros. Sendo verdade que sou sensível ao facto de se tratar de uma empresa monopolista e que, por isso mesmo, os méritos de gestão podem ser relativizados (resultados mais fáceis de alcançar, supostamente...), a verdade é que Mexia não se acomodou e saiu da zona natural de conforto: foi em busca de novos mercados (veja-se o sucesso da operação americana), continua a investir muitos milhões em Portugal (por isso a dívida bancária) promovendo o emprego; impôs a EDP como um dos “players” mais importantes do Mundo na área das renováveis e, “last but not the least”, fez da eléctrica portuguesa um caso muito sério de responsabilidade social.

Além disso, o que Mexia está a receber reporta a três anos de exercício e estava previsto “ab initio”. As regras eram conhecidas. Mudá-las quase no fim apesar dos resultados positivos faria do Estado algo que nós não queremos que ele seja: uma pessoa não de bem!

Nada do que fica exposto prejudica os padrões elevados de ética nos negócios e a necessidade de serem adoptadas de forma generalizada regras de corporate governance em Portugal. Nada do que disse afasta a necessidade de em situações excepcionais se poderem tomar medidas especiais, mas avisam-se e preparam-se as vontade de todos não se impõem por decreto aos “79 minutos de jogo”...

Publicado no Diário As Beiras

segunda-feira, 5 de abril de 2010

DEMOCRACIA DIGITAL XLIII



Por estes dias em Bruxelas, os Chefes de Estado e de Governo que compõem o Conselho Europeu voltam a discutir as saídas para a crise e sobretudo o caso Grego. Mas há mais vida para além dos défices e das questões financeiras! Diria mesmo, que há outros temas – ainda que pouco mediatizados – que são a chave para superar este certo impasse em que a Europa dos 27 parece encontrar-se.

Refiro-me, por exemplo, ao Programa “Europa 2020” que veio rever e actualizar a “Estratégia de Lisboa”. De entre as suas diversas medidas destacaria a Agenda Digital, que reperesenta um desafio imenso.

Já existe um mercado único de pessoas, bens e serviços assim como uma moeda única, seria pois oportuno e estratégico criar-se um mercado único digital em que se compreende a internet como “driver” de um crescimento assente cada vez mais numa inovação aberta, na criatividade e na participação.

Redes de acesso à internet cada vez mais largas e rápidas que permitam a transmissão fluente de dados; um sistema de “e-commerce” regulado e fiscalizado de forma uniforme e que proteja a propriedade intelectual europeia; ambiciosos programas de formação e inclusão digital que qualifiquem a mão de obra europeia; utilização das TIC como mecanismos de protecção ambiental através da redução das emissões de CO2, entre outras, são algumas ideias que compõem esta “framework” digital europeia.

Igualmente necessária é a definição de uma carta de direitos digitais que por um lado estimule a info-inclusão, mas que proteja os cidadãos de abusos relativos à confidencialidade dos dados pessoais.

Escutei de um “senior adviser” do Presidente Barroso que a Europa tem pela frente “4 M´s” de desafios: mais população; mais activos; mais produtividade e mais longevidade no mercado de trabalho. Acrescentaria um quinto: mais tecnologia!

Publicado no Jornal OJE

A PALHAÇADA



O Canal Parlamento, cujos níveis de audiência são em regra muitíssimo baixos, atingiu com as recentes audições sobre a suposta falta de “liberdade de expressão” no “Caso TVI” os maiores “shares” de sempre. Digno de registo. Mas, quando visto e revisto o que se lá passa conclui-se que é uma mão cheia de nada. Factos sem relevância e performances ensaiadas que culminarão num quase certo relatório final que estaria escrito à partida...

Alguma novidade?..Não!

Quando, durante anos, as comissões parlamentares de inquérito redundaram em fracassos sucessivos não poderá esperar-se grande coisa das mesmas.
Quando, desde sempre, a motivação para a constituição das comissões parlamentares de inquérito assenta na politiquice e não na busca efectiva da verdade material não poderá ser grande a expectativa.

Quando na maioria das vezes os que são inquiridos não reconhecem nem valor nem mérito aos que inquerem o resultado só pode ser negativo.

Enfim, o problema não está na natureza das comissões de inquérito – que existem em muitos dos parlamentos do mundo – mas sim na forma como são constituídas e na respectiva motivação. Regra geral, estas comissões surgem com base em temas que marcam a agenda mediática e não necessariamente em assuntos que pela sua gravidade e relevância merecem a atenção da sede democrática.

A revisão do funcionamento das comissões de inquérito devia ser objecto de uma mudança mais profunda: das leis eleitorais e do próprio parlamento. A democracia está a perder qualidade, porque os cidadãos estão cada vez mais afastados; o escrutínio público é sobretudo adjectivo e feito por um jornalismo de qualidade duvidosa. Os deputados ainda não perceberam isto e, por isso, irritam-se muito com quando lhes tiram fotos aos computadores, mas esquecem que isso é apenas o início do fim...

Mas se formos mais fundo aumenta a apreensão: há uns anos, entrar num tribunal era um momento de enorme solenidade e respeito, hoje ir ao dentista impõe mais temor.
Vivemos tempos de crise profunda, que não apenas económica e financeira. Como dizia Manuel Alegre não podemos ser governados por economistas, pois o resto parece passar despercebido. Mas esse resto é o essencial!

Publicado no Diário As Beiras

MUDAR DE VIDA




“Este é um dos momentos em que podemos dizer honestamente a nós próprios que foi exactamente por isso que chegámos aqui. Foi por isso que vim para a política.” Esta foi a expressão emocionada usada por Obama, esta semana, após a recente votação que aprovou a Reforma da Saúde nos Estados Unidos. Finalmente, noventa e cinco por cento dos americanos passou a ter acesso a cuidados básicos de saúde.

Aqui, emocionamo-nos ao ler e aplaudimos efusivamente. Achamos mesmo uma conquista social inolvidável. Ao mesmo tempo, delapidamos paulatinamente o nosso SNS que bem podia servir de inspiração a Obama...e como se não bastasse plasmamos no PEC medidas que traduzem iniquidade fiscal flagrante. Enfim.

Em suma, saber porque se vem, para onde se quer ir e como se pode lá chegar é o mínimo exigível a qualquer político.

Obama acreditou que era possível, desde o início. Que era possível ganhar, e ganhou. Que era possível mudar, e mudou! Em síntese, este é um caso paradigmático do que é e para que serve a política: transformar em nome do interesse colectivo.

Só convictamente se usa a arte do convencimento. Só com coragem se consegue mudar. Só com capacidade para envolver o maior número se consegue transformar. À política, hoje em dia, falta muito de antecipação e mais ainda de mobilização.

Há um exercício que deveria ser mandatório para quem quer fazer política: explicar em 3 minutos o porque, o para onde e o como das respectivas ideias. A isto, no mundo empresarial chama-se “elevator pitch” e serve para recrutar talentos. Por que não se faz também em política?.. Desconfio que os resultados seriam reveladores...

Temo – e digo-o com mágoa – a maioria dos nossos políticos não tem a mínima ideia de como usar as ferramentas democráticas e, sobretudo, não tem um desígnio. Um sonho para o país.

Infelizmente, este deserto é uma tendência contemporânea, pelo que os recentes resultados da extrema-direita em diversos países da europa – veja-se a Frente Nacional em França - já não são apenas sintomas, mas evidências de uma doença que alastra.

Em Portugal, os maiores partidos (leia-se PS e PSD) têm a obrigação de se refundar e de, consequentemente, transformar o sistema político. A forma como estão organizados internamente não promove a meritocracia nem a competência e representa regra geral uma ficção de debate. Não reflectem de modo algum aquilo que o país é, e menos ainda o que precisa de vir a ser.

O PSD terá esta semana um novo líder. Se a teoria dos ciclos se confirmar tem elevadas probabilidades de chegar a Primeiro-Ministro. Isto só será realmente importante se conseguirmos perceber para onde vai e como deseja lá chegar. E isso deve-o dizer já com clareza, em nome da honestidade política e intelectual.

Confesso, que até ao momento – sobretudo durante o Congresso e nestes dias de debate interno tornado público – não consegui compreender que Portugal querem amanhã os candidatos a líder do PSD. Perdem-se demasiado na espuma que faz o dia de hoje e serve apenas para iludir.

A aspiração é, portanto, viver o momento em que um líder político português possa afirmar, como Obama, “que foi exactamente por isso que chegámos aqui. Foi por isso que vim para a política.” E mudar a vida de milhões de portugueses!

Publicado no Diário As Beiras

quarta-feira, 17 de março de 2010

QUEM É FELIZ NA ESCOLA PORTUGUESA?!..





Tenho da escola primária – hoje chamam-lhe pomposamente 1º ciclo do ensino básico - as melhores recordações. Fui muito feliz naquele pequeno espaço do ensino público.

Olhando para trás é fácil compreender porquê: tinha uma professora tão exigente quanto divertida, colegas igualmente felizes onde se forjaram as Amizades que permanecem, contínuas (agora são pomposamente auxiliares de acção educativa) atenciosas e pedagogas. Enfim, sair de casa e começar o dia às oito não era um tormento, antes um enorme prazer.

É certo que era uma escola simples como tantas outras. Não havia internet nem banda larga, não havia campos sintéticos nem consolas, não havia Magalhães nem quadros interactivos. Era apenas uma escola simples com crianças, professores e gente feliz!
O país ao tempo não estava melhor. Lembro-me de Mário Soares falar em bancarrota e a adesão à CEE ainda demoraria acontecer. Não havia o PEC mas ainda pairava a sigla do FMI. Pelo menos lembro-me de a ver pinchada em tudo o que eram paredes. Por isso, Portugal era com certeza outro. Bem pior.

Mas e a escola?.. A escola – sublinho pública – era como um oásis onde não havia, além das escramuças próprias de miúdos de 6, 7 ou 8 anos de idade, o tal de “bulliyng” de que agora se fala. Professores a suicidarem-se? Nem pensar, afinal eram o que sonharam ser! Faltas de educação na sala de aula? Apenas uma vez, até se conhecer uma pedagógica reguada ou outra cominação. Pais a criticar professores? Ora essa, afinal de contas a D. Maria de Lurdes era a extensão óbvia da mãe Gena!..

Depois da primária, veio o ciclo e a rebeldia emergente não apagou o siginficado e o papel quotidiano do ensino. A seguir, o liceu e dele tenho as melhores recordações: dos projectos da rádio, do teatro e dos torneios inter-turmas. Dos primeiros passos no associativismo juvenil que confirmava o gosto pela política e pela cidadania activa. De alguns professores absolutamente fascinantes e de muitos funcionários amigos.

Enfim, a escola era isto: aprendizagem, camaradagem, Amizade e despertar cívico. Por isso não poderia deixar de ser bom!

O país mudou muito. Ainda bem, pois transformou-se, regra geral, para melhor. Mas a escola portuguesa tenho sérias dúvidas que tenha acompanhado esta evolução positiva.
Desde logo, os professores são hoje gente desmotivada, a maioria deles sem vocação. E isso é grave. De que vale termos as melhores estruturas se nos falta o conteúdo?..
Mais grave: o discurso desresponsabilizador. Nas Universidades dizem que os estudantes não sabem escrever nem interpretar. Chegam lá sem os mínimos indispensáveis. No Secundário desculpam-se dizendo que a culpa vem detrás, do básico que não prepara para coisa alguma. E, afinal em que ficamos?..

Durante anos as reformas e contra-reformas educativas foram desastrosas, é certo. Mas, tenho para mim que há algo que nunca crescerá por Decreto: a felicidade de quem constrói uma escola, seja professor, aluno ou auxiliar. E aí há, pelos vistos, muito por fazer.

É caso para perguntar: quem é feliz na escola?...E, depois, pensar!..

quarta-feira, 10 de março de 2010

NÃO HÁ SEXO FORTE!


Comemorar efemérides provoca-me sempre sensações mistas. Satisfaz-me pensar que os motivos para a respectiva institucionalização já estão superados e que se mantém o “Dia X” no calendário por razões apenas de memória histórica; mas, ao mesmo tempo, assusta-me pensar que em pleno século XXI se cometem tamanhas atrocidades que justificam a existência do “Dia Y” para provocar a reflexão colectiva.


O Dia Internacional da Mulher é um desses exemplos. Para a minha geração mulheres e homens nascem iguais em direitos e deveres. Não existe o sexo forte!

Mais, confesso que não saberia o verdadeiro valor da vida nem conheceria os maiores prazeres desta acaso não fossem as mulheres, desde logo a minha mãe, mulher e filha!

Habituei-me, desde sempre, a partilhar tempo e espaço com mulheres de elevada capacidade intelectual e com competências profissionais superiores à média, por isso mesmo não me causa nem embaraço nem perplexidade conviver de igual para igual com elas ou até mesmo ser liderado por elas.

Não existem, à luz dos meus valores individuais e das minhas regras de convivência social, quaisquer motivos para uma discriminação positiva ou negativa em função do género. Todavia compreendo que, face ao atraso civilizacional de algumas sociedades, exista a necessidade política de construir modelos que favoreçam e discriminem positivamente algum dos géneros: regra geral o feminino.

Foi com base neste pressuposto que há uns anos se aprovou o famigerado “sistema de quotas” para participação de mais mulheres na vida política nacional. Ora, deu-se um impulso tremendo, de tal modo que o parlamento português, hoje, é dos que mais mulheres têm no espaço europeu.
Todavia, passados alguns anos, conviria fazer um balanço. Não basta impor quotas, é preciso avaliar e perceber o seguinte: qual o perfil das mulheres que passaram a ser eleitas com as quotas? Que tipo de intervenções passaram a ter e a fazer no espaço parlamentar? Que cargos de direcção ocupam? Que tipo de actividade passam a ter depois de uma experiência parlamentar? Qual a incidência da reeleição?.. Estas e outras questões permitir-nos-ão chegar a algumas conclusões que, suspeito com fundamento, não foram decerto aquelas que os promotores das “quotas” desejariam…

Em suma, há um caminho a fazer. Nem sempre as mudanças legislativas só por si produzem efeitos. E, tenho para mim, que mais importante do que medidas simbólicas ao nível político é a atitude das próprias mulheres, que não podem continuar a pensar e a mover-se dentro de esquemas sociais e de pensamento machista.


Actualmente, mais importante do que decretos e portarias são as decisões que as empresas internamente possam tomar para promover uma maternidade activa, um equilíbrio entre trabalho e vida familiar e a partilha de responsabilidades em cargos de direcção. Aqui sim se criam condições efectivas para promover as mulheres e as suas competências próprias.

Apesar de tudo abundam os bons exemplos e os números demonstram que em muitos sectores, sobretudo na Universidade, as mulheres se afirmam e se impõem. De tal modo que um amigo com responsabilidades políticas neste país dizia com graça que um destes dias será preciso instituir o Dia Internacional do Homem, pois estamos a passos largos a gerar modelos sociais e económicos em que o sexo feminino é manifestamente o mais forte. Esperemos que não artificialmente!..


Publicado no Diário As Beiras

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

DEMOCRACIA DIGITAL XLI


A nova vaga na internet: a Real-Time Web, tem no Twitter o seu maior símbolo. Isto significa que o instantâneo, aproximando cada vez mais o virtual da realidade, está a conquistar a atenção dos utilizadores em todo o Mundo, sejam empresas ou cidadãos.

Aquilo que poderia ser considerada uma ferramenta para puro voyeurismo social e a iníqua exposição pública – dizendo apenas onde estamos e o que fazemos - passou subitamente a ser um instrumento institucional, comercial e social poderoso. As empresas começaram a conquistar novos consumidores e a promover os seus produtos e serviços por este canal; as campanhas políticas preparam mensagens para este novo modelo de comunicação (v.g. Obama) e as revoluções sociais (ex. Irão) passaram a dar-se a conhecer ao Mundo por este meio.

Por isso mesmo é sem surpresa que sabemos, hoje, que há cinquenta milhões de actualizações diárias feitas pelos utilizadores do Twitter. Número impressionante! Acresce, que, num recente estudo, foi tornado público que a língua inglesa representa 50% dos “posts”, seguido do japonês (14%), do português (9%), do malaio (6%) e do espanhol (4%).

Ora, daqui resultam algumas conclusões: a adopção tecnológica por luso-falantes é uma evidencia; as ferramentas de real-time web são oportunidades imensas para os cidadãos, empresas e estados lusófonos; a existência de estratégias públicas para o mundo digital um imperativo.

Quem ficar fora deste proceso terá muita dificuldade em progredir. Já não se trata de um mero mito virtual. É mesmo realidade e instantánea!
Publicado no Jornal OJE

APOLOGIA DO CINZENTO


A democracia vive de alternância e de alternativas, por isso mesmo quanto mais opções tivermos mais simples e consciente se torna a escolha. O problema está no cinzento, naquilo que gera indiferença e não se distingue.

Uma oposição forte credibiliza o sistema e valoriza o próprio governo, porque o torna mais atento e mais eficiente. Isto tem faltado, manifestamente, nos últimos tempos, em Portugal.

O processo de escolha de uma nova liderança no PSD é, por isso mesmo, um momento não desprezível. Algo resultará: mudará o líder, mas o que mais poderá mudar? Nesta fase é uma incógnita.


Aliás, em bom rigor, muito pouco sabemos sobre o que pensam os candidatos do PSD. Como resolveriam o problema do desemprego? Como relançariam a economia nacional? Qual a aposta na educação? Continuariam com o Plano Tecnológico? Que ideias para reformar a Justiça?.. Sobre tudo isto ainda nada se disse.

Muito se tem dito e escrito sobre a crise das ideologias, de tal modo que se construiu a tese de que as eleições se ganham, regra geral, ao centro; numa massa eleitoral volátil que ninguém consegue identificar, mas que fica algures entre a esquerda e a direita. Ora, se isso existe será pois aí que os candidatos do PSD se quererão posicionar. Aqui está o primeiro risco: a ausência de compromisso e, consequentemente, de factores diferenciadores.

Mas, sobretudo, o poder não se conquista, perde-se. Quer isto dizer que o actual governo, cuja legitimidade eleitoral é inquestionável, tem todas as condições para governar – aliás, uma crise política nesta fase seria trágica para a nossa débil economia – e, portanto, deve prosseguir o seu rumo, dependendo, assim, da respectiva performance o sucesso ou insucesso desta legislatura, sendo, pois, um pouco indiferente – nesta data – quem será o senhor que se segue no PSD. Sócrates depende essencialmente de si próprio.

Seria, em suma, importante para Portugal que no PSD se travasse um combate entre o “preto” e o “branco”, retirando da zona cinzenta de conforto os candidatos.
Publicado no Diário As Beiras

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

JUSTIÇA: O PIOR DE TODOS OS MALES!


Esta semana o Bastonário da Ordem dos Advogados meteu, uma vez mais, o dedo na ferida: se as decisões judiciais não são respeitadas para que servem os tribunais?.. Foi mais longe mesmo e acrescentou que a Justiça no tempo da ditadura funcionava melhor.


Esta declaração, vinda de quem veio, deveria merecer a melhor atenção de todos os portugueses. Não apenas do Presidente, do Governo e dos deputados a quem estamos habituados a imputar responsabilidades. Na verdade, a crise profunda da Justiça portuguesa é, seguramente, o maior desafio que este país vive desde o 25 de Abril. É uma questão nacional que exigirá de todos o melhor contributo.

A Justiça é verdadeiramente a questão central dos muitos debates a que temos assistido nos últimos anos quando falamos de empresas, de direitos individuais, de relacionamento com o Estado, etc.

A falta de credibilidade e a perda de respeito pelos tribunais tem minado a confiança na própria democracia, pelo que os episódios mais recentes são apenas o corolário lógico e inelutável de um cancro que dissemina sem que os agentes políticos e judiciários tenham sabido reagir.

É certo que o desemprego é o nosso maior problema conjuntural, todavia, estruturalmente falando, a recuperação da eficácia e da credibilidade da Justiça afirma-se como o mais estratégico objectivo. Dele dependerá, em grande medida, a maturidade da própria democracia e a sobrevivência da nossa economia.

Senão vejamos: cepticismo, resignação, incredulidade, revolta e descrença, entre outros, são apenas algumas dos substantivos que acompanham a relação dos cidadãos e empresas com a Justiça.

Quantos cidadãos desistem de processar o Estado, porque acham que a decisão nunca chegará em tempo útil? Quantos empresários não recuperam créditos porque não acreditam no tempo e nas decisões dos tribunais? Quantos não decidem pelos seus próprios meios o que em rigor deveria ser decidido pelos tribunais?..

Todos nós, sem excepção, conhecemos casos de arbitrariedade, decisões irracionais, muitas sentenças extemporâneas e alguém que já foi vítima de má justiça. Ora isto é grave!

Assim sendo, a violação sistemática do segredo de justiça é, apenas, uma das faces visíveis da quebra das regras e dos princípios que presidem a um verdadeiro Estado de Direito. Passou-se a julgar na praça pública e no interesse do público, por contraposição a julgamentos nos tribunais e à luz do interesse público.

A comunicação social passou do papel à prática a ideia de que representa o 4º poder. É-o de facto! Quando os juízes vacilam já os jornalistas publicaram; quando as polícias investigam já os media condenaram, quando os tribunais sentenciam já o tema na comunicação social transitou em julgado! Está tudo ao contrário, lamentavelmente.

Volto ao Bastonário da Ordem dos Advogados, que além de ilustre advogado foi durante anos jornalista, para recordar que também ele invocou (diversas vezes) as violações sistemáticas das regras deontológicas por parte de jornalistas. Por outras palavras, o jornalismo em Portugal, salvo raras excepções, é de duvidosa qualidade e seriedade.

A actual crise económica obriga a puxar pela imaginação (ainda que perversamente) para se venderem mais edições, de preferência extras…Os tribunais e o direito não são mais limites, o objectivo é a sobrevivência e o “market share”.

Ainda não perceberam que vamos todos pelo cano. Todos, mesmo!