Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

SERVIÇO PÚBLICO



Vivo num país – a 5ª potência do Mundo atual – onde a educação pública é má, a saúde pública desaconselhável e, mais ou menos, tudo o que é gerido a partir do Estado tem elevado grau de ineficiência e desconfiança. Mas,  contexto atual, dá-me um bom termo de comparação com os serviços públicos portugueses.

A saúde pública portuguesa é (ainda) uma das melhores do Mundo. A escola pública (onde fiz orgulhosamente toda a minha formação) é de elevada qualidade. E outros serviços de natureza pública são, regra geral, bons, apesar dos nossos queixumes.

Obviamente, que, segundo índices de racionalidade económica e por critérios de eficiência na gestão, há muito a fazer em Portugal. Muito onde se pode cortar e muito mais ainda onde se pode estimular para obter melhores resultados.

Mas o atual governo não quer melhorar os serviços públicos. Quer acabar com eles. Chamam-lhe eufemisticamente privatização, mas na verdade é extermínio. O governo de direita liberal que comanda os destinos de Portugal está numa cruzada incessante de desmantelamento de tudo o que é ou cheira a serviço público. O erro está, desde logo, no preconceito. Fazem-no porque ser de direita - vem nos livros - é ser contra a presença do Estado em qualquer setor. E isso é mau.

O melhor exemplo de digno e relevante serviço público a que assisti foi no passado domingo e prestado pela RTP. Acompanhou detalhadamente a festa coimbrã com a vitória da Académica. Ninguém mais o faria. É serviço público? É, porque a festa não é um exclusivo do Marquês de Pombal, nem da Avenida dos Aliados. É também da Praça da República!

Querem poupar nas contas? Pois então não paguem fortunas ao Futre, ao Baião e demais. Dêem oportunidade aos jovens jornalistas no desemprego e aos muitos artistas desocupados que por bem menos demonstrarão enormes capacidade, dons e atributos. Serviço público é também responder na crise de forma diferente.

Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

NUNCA NOS RENDEREMOS!



Este será um fim-de-semana especial. Muito especial, aliás. Regressar a casa para junto da família e dos amigos seria por si só um prazer, mas acrescentar uma ida à final do Jamor para ver a Briosa torna a coisa histórica e indescritível.

A Académica já chegará ao épico Estádio Nacional vencedora. Para lá chegar derrotou, entre outros, o Campeão Nacional. Um feito notável. Uma vitória, portanto. Além disso, resistiu e não foi despromovida. Como sempre um suplício. Mas outra vitória. Acresce, que também pode agora usar do epíteto de “equipa europeia”. Ah, pois é! E é ou não outra vitória?..

Apesar de tudo, várias gerações - entre as quais a minha – desejam poder reviver em 2012 o sonho da Briosa campeã no longínquo ano de 1939. Concentremo-nos, então, no essencial: vencer no próximo domingo!

Não sei o que treinador e diretores irão dizer aos atletas para os motivar nas horas que antecedem a partida. Sei, todavia, que esse exercício não é um pormenor mas um “pormaior”. Sei que os grandes campeões são exímios nessas sessões de motivação e de “team building”. Ora, perguntem ao José Mourinho!..

Algumas ideias que os jogadores deverão ter em mente: representar a secular Académica é um privilégio não um direito; não estaremos perante uma simples partida de futebol mas num reencontro de Coimbra com a sua história; a auto-estima de muitos milhares projeta-se no esforço dos 11 eleitos e, acima de tudo, o segundo é o primeiro dos últimos.

É, também, o tempo para revisitarmos um dos mais belos e marcantes discursos da história mundial, quando Winston Churchill, em 1940, na Câmara dos Comuns, após a derrota da França perante a Alemanha nazi, incitou os Ingleses com: “Lutaremos nas praias, lutaremos nos lugares onde estivermos, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas, nunca nos renderemos...”.

Este é o espírito que se deseja. Lutar com “sangue, suor e lágrimas” até ao último minuto para dignificar a memória e o futuro da melhor instituição do mundo!  

Quarta-feira, 16 de Maio de 2012

REGRESSO Á POLÍTICA


A França escolheu um novo presidente. De esquerda. Assumidamente de esquerda. Sem equívocos. Isto significa que os franceses optaram por uma mudança significativa, não apenas no estilo, mas no conteúdo das políticas públicas.

A França foi – há demasiado tempo – um laboratório político essencial para a construção de medidas de proteção social, defesa dos trabalhadores e garantia de direitos. Um exemplo para muitos outros países. Depois, veio o declínio. Da economia francesa e da política francesa. Há muito que a França não influencia em nada.

Ora, neste momento de profunda crise europeia, a França pode ter uma palavra muito relevante. Sobretudo para não deixar aprofundar o fosso entre os do Sul e os outros. E, ainda, conter o desmando liberal-radical da egoísta senhora Merkel.

Curioso – ou talvez não – na mesma semana, o Presidente dos Estados Unidos assume uma medida histórica do ponto de vista dos direitos civis: o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Quem conhece o conservadorismo (tantas vezes cínico e farisaico) dos americanos sabe o impacto político deste anúncio.

Obama demonstra uma vez mais coragem e sentido estratégico. A seis meses das eleições quer deixar bem clara a diferença ideológica entre os democratas e os conservadores. O “casamento gay” é não apenas importante como medida para o reconhecimento da igualdade nos direitos, mas tem um significado político incontornável: tal como em França, hoje, nos EUA discutem-se posições perante a economia e a sociedade com forte pendor ideológico. Obama percebeu que vale a pena arriscar e ir mais fundo.

Este regressso à política ou ao sentido mais ideológico das funções governativas é bom para o Mundo. Enquanto isso, em Portugal, nada de novo...


Quinta-feira, 3 de Maio de 2012

TEMPO DE QUEIMA


“O primeiro a gente nunca esquece” é uma frase reconhecida por todos no Brasil. Resultou de um slogan criado por Washington Olivetto para promover, há muitos anos, a venda de um soutiã. Desde então, a frase-slogan passou a ter as mais diversas utilizações e significados...

Lembrei-me disto ao recordar que esta é, com certeza, a semana mais importante do ano para os estudantes de Coimbra. Aproveitem-na, pois! Muitas das marcas indeléveis dos tempos universitários constróem-se, a cada ano, por estes dias de Maio.

Pelo menos, comigo, foi assim! A primeira nunca esqueci, mas as seguintes também não!..

Hoje, compreendo, mais do que nunca, que a distância física aumenta a necessidade de referenciais. Seja em relação a pessoas, a entidades ou ao país como um todo. Viver deste lado do Atlântico – a muitos milhares de quilómetros das origens – dá uma relevância nunca sentida às coisas mais simples da vida. E a semana da Queima era uma dessas coisas simples da vida e, também, uma das mais esperadas.

O genial filósofo Eduardo Lourenço referiu-se, há uns dias, a Coimbra como “uma cidade de ordem poética”. É o de fato. Se assim não fosse, as memórias de tantas e tantas gerações passadas por Coimbra seriam algo vago e superficial. Sabemos bem que não são! Sabemos todos que Coimbra tem uma magia única de atrair para o resto da vida, mesmo quando é provinciana, ingrata e atávica.

Será por isso que até os exageros próprios da semana da Queima têm o seu lado poético...

Enfim, os dias atuais são difíceis, sobretudo para quem está prestes a terminar a universidade em Portugal. Mas, ainda assim, aproveitem estes momentos únicos e irrepetíveis. Sonhem os vossos próprios sonhos embalados por uma Coimbra única.

Na próxima semana haverá tempo de sobra para compreender como enfrentar o futuro.

Quinta-feira, 5 de Abril de 2012

NOVIDADE POLÍTICA



Esta semana, uma importante pesquisa divulgou que a Presidente Dilma Rousseff detém aprovação pessoal de 77% dos brasileiros. Resultado impressionante ao final de um ano de mandato, sobretudo se considerarmos que perdeu meia-dúzia de ministros pelo caminho e que a economia não cresce como desejado. Para se ter a noção real do que significa este apoio faça-se a comparação com os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula da Silva, que, em igual período dos seus governos, tinham “apenas” 60% e 54% respetivamente.

Dilma, a quem acusavam de falta de carisma representa algo novo na política brasileira. E é essa novidade que seduz e a transforma em produto popular. Ou seja, numa sociedade estigmatizada pela corrupção e pela suspeição permanente, Dilma adotou uma postura de firme condenação do fenómeno e de evidente distanciamento face aos suspeitos, mesmo quando seus apoiantes. Isso, de forma tão ostensiva, é novo no Brasil. Há uma geração nova que desejava essa atitude.

Por outro lado, no Brasil, apesar da riqueza de recursos, faltam políticas de gestão pública focadas em eficiência e resultados. No meio do processo burocrático consome-se demasiado tempo, energia e meios, prejudicando o objetivo central. Os americanos usam a expressão “accountability” para descrever a relevância de avaliação responsável permanente para análise de eficiência e resultados. Algo que falta muito em Portugal também... Ora, Dilma – que é sobretudo uma gestora e aprendiz de política – tem essa obsessão com a dita “accountability” pública. Algo novo também!

Enfim, poderíamos continuar, mas, essencialmente, a conclusão é que há uma mudança global dos perfis políticos e do que os cidadãos esperam de quem os governa. Anseiam por rostos novos, com percursos diferentes, com vidas comuns e iguais às suas, com ambição, com experiências globais e próprias do tempo que vivemos. Alguém duvida que os eleitores conscientes estão fartos dos mesmos de sempre com a política do costume?..

Ao escrever estas linhas, dei-me conta que o PS em Coimbra anunciou para breve a escolha do seu candidato à Câmara Municipal, talvez fosse oportuno olhar para o passado recente e, sobretudo, para o futuro para fazer a escolha certa. Já agora algo novo. Como Dilma, por exemplo.

Quinta-feira, 29 de Março de 2012

CUSPIR NA SOPA!



O Brasil tem no petróleo uma das suas riquezas atuais e um motivo de esperança assumida num futuro melhor. Enquanto os políticos discutem (e não se entendem) quanto à distribuição e afetação dos “royalties”, os derrames e desastres ecológicos sucedem-se. Pior: a ideia que fica é a de uma impotência absoluta face aos fatos. Ou seja, este exemplo serve apenas para demonstrar como o “país do pré-sal” tem no seu atual motivo de júbilo um elevadíssimo risco ambiental. E, “estão nem aí”...

Durante muito tempo, um pouco por todo o lado, a ecologia foi uma importante bandeira política. Sinal de modernidade. Criaram-se mesmo partidos com pendor ambientalista. Os anos passaram e “os verdes” até chegaram ao poder em relevantes países do mundo. Mas, e isso mudou alguma coisa?..

O que mudou mesmo foram as preocupações das pessoas. Hoje, a questão ambiental não aparece entre as prioridades dos cidadãos, ao invés do emprego, da saúde e da habitação, núcleo das inquietações individuais.

A Rio+20 – conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável  –vai ter lugar, em Junho, no Rio de Janeiro. Já muito se fala da dita, sobretudo porque há meses que a capacidade hoteleira do Rio esgotou e se abrem ótimas perspetivas de negócios para os diversos setores, em especial o turístico. Quanto ao objeto que se lá vai tratar, a espaços ouvem-se uns rumores...

Mas se observarmos o que mudou desde a Conferência do Clima, também no Rio, em 1992, chegaremos a tristes e decepcionantes conclusões.

Os Estados, na voracidade dos dias globais em que a competitivade internacional impera, acabam por estar mais preocupados com os baixos custos produtivos e com o acesso ao capital do que propriamente com a sustentabilidade ambiental.

Produzem convenções juridicamente pomposas – que uns assinam e outros não, mas que raramente alguém respeita porque não há verdadeiros mecanismos de fiscalização e penalização - criaram mercados para comercializar carbono e outro tipo de inovações que ninguém entende, mas o saneamento básico continua por fazer, o tratamento e reciclagem dos resíduos é uma miragem e as reservas de água seguem maltratadas um pouco por todo o mundo.

Em suma, andamos literalmente a “cuspir na sopa”.

Quinta-feira, 1 de Março de 2012

E A CULPA É DO GALLO!?


Uma das mais recentes campanhas publicitárias do Azeite Gallo, no Brasil, está a ser alvo de queixas por alegado racismo. A marca decidiu salientar a importância do vidro escuro para preservação de determinadas qualidades e características do produto. Simples. Na base da reclamação, pasme-se, está o slogan “Nosso azeite é rico. O vidro escuro é o segurança”. Como dizem por estas bandas: “me poupe”.

É um absurdo ver numa mera campanha publicitária que, por ser isso mesmo, recorre a efeitos linguísticos e de imagem especiais, um atentado racista. Neste caso a situação torna-se ainda mais ridícula quanto é sabida e reconhecida a associação no Brasil entre ricos e segurança e que a maior parte destes se veste de preto ou são mesmo de raça negra. Estavámos então perante estereótipos, apenas.

Acresce, que, no Brasil, o tema do racismo é ainda hoje uma questão mal resolvida e que muitas vezes serve (vezes demais, diria) para fazer ajustes com a história. Se a marca de azeite Gallo não fosse portuguesa teria havido semelhante reação? Fica a pergunta...

Por outro lado, o tema racismo responde e alimenta diversos interesses por estas bandas. Desde Organizações Não Governamentais que vivem por conta do erário público para tratar do tema até partidos políticos que fazem dessa bandeira um fantasma com intuito eleitoralista, vê-se de tudo.

O racismo existe. Seria impossível não existir numa sociedade onde a miscigenação cultural é tão evidente e, sobretudo, onde as desigualdades sociais são ainda tão gritantes. Porém estes problemas resolvem-se de outra forma que não acusando uma campanha publicitária inofensiva de um azeite português.

Finalmente, um dado relevante do Censos 2010: há mais pessoas declarando-se pretas e pardas. Este grupo subiu para 43,1% e 7,6%, respetivamente, na década de 2000, enquanto, no censo anterior, era 38,4% e 6,2% do total da população brasileira. Já a população branca representava, em 2010, 47,7% do total; a população amarela (oriental) 1,1% e, a indígena, 0,4%.

Arriscaria, assim, dizer que, hoje em dia, quando quase metade da população é negra ou parda o racismo é um fenómeno muito mais económico que cultural. E a culpa é do Gallo!?.. 

Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

INSPIRAÇÃO COREANA




É deprimente ler os jornais portugueses. Desemprego, crise, depressão, crime, cortes salariais e emigração são, com certeza, as expressões mais usadas. Mais grave se torna, quando não percebemos onde termina este buraco recessivo e em nome de quê se estão a impor tantos sacrifícios.

Valeria, pois, a pena enviar parte do governo português, qual viagem de estudo, à Coreia do Sul para compreender como aquele povo, com orientação do Estado mas sem castração da iniciativa privada, se reabilitou da gravíssima crise financeira de 1998 e, hoje, se apresenta como país-modelo com taxas de crescimento elevadas e desenvolvimento sustentado.

Samsung, LG, Hyundai e Daewoo são exemplos, entre outros, de marcas coreanas que se tornaram globais e casos de sucesso. Na origem está o suporte estratégico que receberam do poder público para se transformarem em empresas exportadoras e com elevado índice tecnológico. Ou seja, cedo os coreanos compreenderam que o crescimento sustentado não pode depender apenas do mercado interno e que o Estado, sobretudo na definição das políticas de acesso ao crédito e aos estímulos à exportação, pode dar uma ajuda inestimável.

Por outro lado, os coreanos foram motivados a associar-se. A criar grupos económicos fortes pela soma das partes. Ou seja, a globalização dos mercados exige níveis de competitividade muito elevados que apenas uma cooperação estratégica pode dar escala. Dito de outro modo, grandes grupos portugueses (na construção civil, distribuição alimentar, energia, etc etc) são “nano-entidades” à escala mundial, pelo que os agrupamentos de empresas, sobretudo voltados para estratégicos mercados externos, deveria há muito ter sido opção nacional.

Finalmente, e talvez o mais importante dos condimentos do sucesso coreano, o investimento público em educação. Hoje, o modelo educativo coreano contém inúmeras “boas práticas” mundiais, fomentando o conhecimento das ciências exatas e estimulando competências para a economia do conhecimento e para a sociedade da informação, afinal de contas aquilo que hoje faz mover o mundo.

Com a “estratégia do pastel de nata“ não chegaremos a lado nenhum. Mais vale ir a Seul aprender intensivamente como se faz.

Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012

DEMITA-SE SENHOR PRESIDENTE!


Declaração de interesses: nunca votei em Cavaco Silva, quer para Primeiro-Ministro quer para Presidente, porém reconheço alguns méritos no seu primeiro mandato presidencial. Advertência feita, vamos ao que interessa.
Os ilustres constitucionalistas Gomes Canotilho e Vital Moreira são autores de um livro célebre – “Os Poderes do Presidente da República” - que deveria estar presente na mesa de cabeceira de Cavaco Silva e ser relido quase diariamente. Sobretudo no contexto atual do país e da europa.

Portugal vive hoje sem a sua maior figura de referência: o Presidente da República. Aquele que deveria exercer uma “magistratura de influência” (na definição de Mário Soares), ser o catalizador da unidade nacional e o garante da estabilidade necessária para mudar, simplesmente não existe!
Cavaco perdeu a noção política das coisas. Alguém que, como ele, se permitiu comentar sobre os respetivos rendimentos num momento em que muitas centenas de milhares de portugueses não têm para sobreviver é um Presidente alheado da realidade coletiva.

Alguém que, como ele, ainda ontem, cancelou a ida a uma escola de Lisboa por receios de ouvir críticas estudantis é um Presidente autista e amedrontado com o pulsar social. O tal sentimento de angústia que ele deveria procurar compreender e ajudar a superar nos termos dos seus poderes constitucionais.
Navegando pelas redes sociais percebe-se como Cavaco perdeu o país e como se transformou numa espécie de anedota nacional. Como republicano lamento sinceramente.

Ser Presidente implica ter coragem política, como outros no passado recente que dissolveram a Assembleia da República. Ser Presidente exige ter uma simbiose com o sentir popular, como outros que hoje não o sendo mais ainda a têm. Ser Presidente acarreta a responsabilidade, agora mais do que nunca, de estar na base das soluções e não ser mais um problema ou interpretado como um mero custo democrático.
A coisa chegou a tal ponto que nem há mais espaço para dizer “deixem-no acabar o mandato com dignidade”, como fez Soares quando Cavaco era PM.

Demita-se, pois, Senhor Presidente.

Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2012

ERA O QUE MAIS FALTAVA!


Portugal está mal? Está. Mas ainda não perdeu a face nem a dignidade. Somos uma das nações mais antigas do Mundo e, por isso, o respeito é devido.


O Presidente do Parlamento Europeu, o alemão Martin Schulz , criticou com desfaçatez o governo de Portugal por apelar ao investimento externo no nosso país, designadamente junto de angolanos.


O Senhor Schulz ou é burro ou anda distraído. Arriscaria dizer que talvez as duas!

Desde quando um político alemão, seja ele de que partido for e tenha mais ou menos peso institucional na Europa, tem legitimidade para se pronunciar sobre as opções diplomáticas de Portugal? Desde quando se arroga no direito de condicionar ou comentar as possíveis parcerias económicas que o governo português deseje realizar? Ora esta!


Mais grave se torna, quando os espúrios argumentos assentam na demagogia mais profunda. Diz o Senhor Schulz que a entrada de capital angolano (ele deveria estar a pensar também no brasileiro, no chinês e em tudo o que não seja europeu) conduzirá ao “declínio de Portugal”. No declínio já nós estamos. E alguns dos (muitos) responsáveis têm assento em Bruxelas, onde o Senhor Schulz passa três dias por semana enlevado em mordomias mil.


Leia-se (com esforço para não sorrir) as deliciosas considerações do Senhor Schulz para criticar o apelo português a capitais estrangeiros: “porque não defendemos o nosso Estado de direito, e o modelo dos direitos do homem, e uma crescente capacidade económica, para desafiar, não só do ponto de vista económico, mas também de democracia política? [...] Se não tomarmos rapidamente esta decisão, a Europa tornar-se-á irrelevante”. Uma vez mais o dito Senhor é burro ou anda distraído.


A Europa é cada vez mais irrelevante do ponto de vista económico. Resta-nos a importância do legado histórico e de alguma tradição social. No mais, foi na Europa que tiveram lugar genocídios perpetrados por conterrâneos do Senhor Schulz, já que veio agora falar de direitos humanos.


Enfim, Portugal só tem uma saída para a crise: internacionalizar o mais possível a sua economia e isso passa por colocar os produtos e empresas portuguesas nos mercados em expansão (que não é o caso europeu) e atrair capital estrangeiro para gerar emprego, o tal que também não vem da Europa. Por tudo isto, o Senhor Schulz perdeu uma boa oportunidade para estar calado.

Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012

SEM VERGONHA!


Em Espanha, o governo de direita recentemente eleito acaba de anunciar que vai rever a Lei da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), num injustificado retrocesso civilizacional. Aqui, o governo português, também de direita, já anunciou que pretende muito provavelmente fazer o mesmo. As más práticas replicam-se...

Num caso como noutro estamos perante embustes do tamanho do défice! Na verdade – e a direita é exímia nisso – os governantes de um e de outro lado da fronteira estão-se borrifando para a saúde pública, para os direitos das mulheres e para o combate ao aborto clandestino. Este tipo de decisão, num caso, e anúncio noutro, corresponde a uma manobra antiga de diversão, isto é, criar um fato paralelo que distraia as mentes face ao essencial.

Portugal, como Espanha, vivem hoje os momentos sociais e económicos mais difíceis desde a implantação das respetivas democracias. O desemprego atinge as mais altas taxas de sempre, o poder de compra nunca foi tão escasso, as empresas definham sem mercado, a banca está comprometida sem igual, etc etc. Ora, e perante este cenário pré-catástrofe os governos de direita eis que tiram da cartola a necessidade de rever a Lei da IVG, pois isso sim impacta no quotidiano das pessoas e vai, com certeza, mudar o rumo das coisas...

Lamentável! Vergonhoso! A direita sabe que o tema do aborto mobiliza consciências, divide, agita opiniões e tem espaço mediático, por isso o “show off” premeditado. Enquanto o “zé” estiver ocupado no café a discutir sim ou não ao aborto, enquanto nas missas se fizem sermões sobre o tema, enquanto as televisões alimentarem debates fraturantes, o governo descansa...tem mais tempo para pensar como (não) enfrentar a crise!

Como se não bastasse, ouvindo os responsáveis da direita, em Portugal e em Espanha, usam o mesmo argumento: foi uma promessa eleitoral e por isso está legitimada. Legitimada? Uma porra! Na verdade, também prometeram não aumentar impostos e conter o desemprego e nenhuma das duas está a ser realizada. A legitimidade democrática é outra coisa, bem mais séria e responsável!

Para já, perguntem às milhares de mulheres portuguesas, a maioria de baixa condição económica, que deixaram de abortar (e de correr risco de vida) em abortadeiras de vão de escada qual a respetiva opinião. Isso sim, conta e legitima!


Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

SOPA INDIGESTA


Na próxima semana o congresso norte-americano debate a SOPA, um projeto normativo (supostamente) anti-pirataria que a ser aprovado representaria um ataque sem paralelo à internet como a conhecemos: a maior auto-estrada tecnológica de comunicação e informação de sempre.

Nunca se viu um ataque global tão massivo. Mutatis mutandis seria como uma guerra nuclear de escala mundial. Como muita da base da internet está, ainda, sediada nos EUA os efeitos da aplicação da legislação americana impactaria em todo o Mundo, não deixando liberdade para usuários, empresas e estados poderem contra-reagir.

Basicamente, a motivação da SOPA assenta num esforço de pressão das indústrias cinematográfica e musical americanas para que não possa haver qualquer tipo de reprodução na net das obras musicais e dos filmes sem autorização de autores e editoras e o pagamento dos respetivos direitos.

Caso tal aconteça, a proposta em apreço manda extinguir e encerrar administrativamente os sites que publiquem ou veiculem tais imagens e sons, sem qualquer intervenção judicial ou possibilidade de defesa.

Isto seria o fim de milhões de blogues, de milhões e milhões de resultados que os motores de busca passariam a ter de omitir, muito provavelmente o fim do Youtube, do Facebook e de muitas outras redes sociais tais como as conhecemos hoje em dia. Um descalabro, portanto.

A internet há muito que deixou de ser uma coisa de “geeks” e de “nerds”. É a plataforma comunicacional e de relacionamento dos tempos modernos. De tal modo que em muitos países se discute a inserção do direito de acesso à net nas próprias constituições como algo tão fundamental como a educação, a saúde, água e a luz.

A internet é, hoje, uma fonte de inovação permanente, um espaço de comunicação global, uma plataforma comercial e económica gigantesca, que ainda está muito subaproveitada para ajudar a tornar o mundo num espaço melhor.

Alguns congressistas americanos querem agora travar o processo de evolução humana, porque é disso mesmo que se trata. Eu, pessoalmente, não concebo um mundo sem internet livre e democrática. Obviamente, deve existir regulação para evitar excessos, todavia essa deve resultar de processos globais de debate, participados e garantindo sempre o direito de defesa.

MUITO MAIS QUE 90 MINUTOS!


Nos últimos dias, apesar da enorme distância física, temos sentido uma energia mobilizadora em torno de Coimbra. A Briosa tem sido o catalizador e denominador comum.

No momento em que o presente texto está a ser escrito, estamos a 10 horas da partida mais importante das últimas décadas em Coimbra. Quando vir a luz do dia no jornal saber-se-á já o resultado final, que sendo obviamente o mais relevante não altera todavia o espírito deste registo.

Os noventa minutos de hoje não serão apenas uma hora e meia de tempo. Não será apenas um mero jogo de futebol. Não são só 11 jogadores contra 11. Não! É um jogo pela história e para a história. É um desafio de afirmação identitária. Uma cidade-região que entra em jogo.

A crise atual dá uma especial envolvência a este jogo. É uma questão de honra e de auto-estima. Coimbra, muito por culpa própria e alheia, tem somado derrotas nas décadas mais recentes. Nas diversas “quatro linhas” da vida...Tem perdido relevância nacional. Tem deixado que assim seja, por isso precisa desesperadamente de um ânimo e de um tónico para a Alma.

Hoje, está em causa não apenas (como se fosse pouco!) a possibilidade de chegar novamente à final da Taça de Portugal, passados 43 anos, mas a oportunidade para unir a cidade-região em torno de um ícone comum e de demonstrar ao Mundo o potencial local.

Coimbra precisa de galvanizar-se. Precisa de se encontrar. Precisa de descobrir um desígnio. Ora, perante a crise de lideranças locais, apenas a Académica tem a capacidade, o peso histórico e a força mobilizadora para ajudar a dar o primeiro passo. Agora!

Há uma frase que tem hoje mais significado que nunca: “o futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso...”

Sexta-feira, 30 de Dezembro de 2011

ARRISCAR PRECISA-SE!


Por estes dias, li num site brasileiro de empreendedorismo a história de uma jovem paulista de 23 anos, com um currículo impressionante, que formada na melhor escola do Mundo de tecnologia – o Massachusetts Institute of Technology– depois de trabalhar no Google e na Microsoft decidira sair para montar o seu próprio negócio.

O que faz alguém tão jovem dispensar a notoriedade e a estrutura dos gigantes tecnológicos Google e Microsoft para se lançar por si no mercado? As respostas para esta questão ajudam a compreender em parte o mundo atual e, sobretudo, a meu ver, podem auxiliar na saída para a crise de um país como Portugal.

O Mundo global da Internet não tem fronteiras, é sabido. Mais, hoje há soluções tecnológicas que a baixos custos permitem começar um negócio rapidamente e vender para os quatros cantos do mundo. Ideia impensável há uns anos. Afinal, o mais importante é a ideia e o modelo de negócio.

A Isabel Mattos, a tal jovem brasileira, pensou num aplicativo gratuito (sublinhe-se) que ajuda a gerir as finanças pessoais. É uma espécie de folha de cálculo organizada e disponível de forma simples em todo o lado, do telemóvel ao computador. No primeiro mês teve 400.000 “downloads” e neste momento já emprega 18 pessoas. Impressionante!

São inúmeras as histórias que diariamente se conhecem deste tipo, sobretudo nos Estados Unidos, mas um pouco também nos países emergentes. Ou seja, há um espírito empreendedor em marcha, um gosto pelo risco que é premiado e não recriminado, um papel estimulante da universidade e o prazer da auto-regulação individual.

A transposiçao para Portugal é óbvia: temos de ter uma ideia de país, um desígnio nacional e, depois, um modelo de desenvolvimento/governação. Neste momento faltam-nos os dois. Honra seja feita ao governo de Sócrates que tinha, pelo menos, o primeiro: um país de tecnologia e de energias renováveis para o Mundo.

Portugal tem um potencial humano imenso, uma posição geográfica privilegiada, uma relação histórica ímpar com o Mundo e vários casos de sucesso que comprovam que vale a pena arriscar. Há por aqui muita “Isabel Mattos” em potência!

Que o novo ano nos traga mais estímulo e boa energia!

Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011

COISAS DA DEMOCRACIA...


1.O “Economist Intelligence Unit” elabora anualmente um “Índice da Democracia”. Portugal – assim como outros países europeus, entre os quais a França, a Itália e a Grécia – desceu no ranking, sendo que foram apontadas diversas falhas ao nosso sistema democrático. Portugal não é mais uma “democracia plena” (na expressão daquela entidade), mas apenas uma “democracia com falhas”.

Os critérios de avaliação abordam o processo eleitoral e pluralismo, o funcionamento do Governo, a participação política, a cultura política e as liberdades cívicas. Os piores resultados são nas categorias de funcionamento do governo e de participação política.

É uma má notícia para o governo. É sabido que, em Portugal, a administração pública e os ministérios podem melhorar a perfomance, assim como serem criados novos e melhores programas para a participação cívica e política dos cidadãos. Desde logo a revisão da lei eleitoral e a reforma no funcionamento dos partidos.

Agora, é interessante reter o seguinte: com a crise a soberania nacional diluiu-se muito, ou seja, percebemos que depende muito pouco de cada país resolver os seus próprios problemas; porém – piorando a coisa – observámos ainda que não existe uma entidade europeia que congregue esforços para uma superação comum dos efeitos da atual crise.

Há, hoje, uma sensação de perda e de insegurança. A dita identidade europeia é um conceito mais vago e as resoluões que impõem taxas de juro, cortes salariais e medidas de austeridade resultam de fatores intangíveis, obscuros e nada legitimados democraticamente.

2.O Partido Comunista Português votou contra um voto de pesar pela morte do ex-Presidente Checo, Vaclav Havel. Inacreditável! Ficaram isolados na homenagem a um político que combateu pela democracia checa, que foi por isso reconhecido e eleito Presidente da República e, além disso, um grande escritor e dramaturgo.

De uma penada, o PCP deixou cair a máscara e revelar uma vez mais que vive fora do tempo e que a democracia tem por aquelas bandas signficados distintos em função dos contextos...Talvez por isso mesmo tenham lamentado publicamente a morte do assassino e ditador coreano, Kim Jong Il, como é sabido um paladino das virtudes democráticas!..