sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

INSPIRAÇÃO COREANA




É deprimente ler os jornais portugueses. Desemprego, crise, depressão, crime, cortes salariais e emigração são, com certeza, as expressões mais usadas. Mais grave se torna, quando não percebemos onde termina este buraco recessivo e em nome de quê se estão a impor tantos sacrifícios.

Valeria, pois, a pena enviar parte do governo português, qual viagem de estudo, à Coreia do Sul para compreender como aquele povo, com orientação do Estado mas sem castração da iniciativa privada, se reabilitou da gravíssima crise financeira de 1998 e, hoje, se apresenta como país-modelo com taxas de crescimento elevadas e desenvolvimento sustentado.

Samsung, LG, Hyundai e Daewoo são exemplos, entre outros, de marcas coreanas que se tornaram globais e casos de sucesso. Na origem está o suporte estratégico que receberam do poder público para se transformarem em empresas exportadoras e com elevado índice tecnológico. Ou seja, cedo os coreanos compreenderam que o crescimento sustentado não pode depender apenas do mercado interno e que o Estado, sobretudo na definição das políticas de acesso ao crédito e aos estímulos à exportação, pode dar uma ajuda inestimável.

Por outro lado, os coreanos foram motivados a associar-se. A criar grupos económicos fortes pela soma das partes. Ou seja, a globalização dos mercados exige níveis de competitividade muito elevados que apenas uma cooperação estratégica pode dar escala. Dito de outro modo, grandes grupos portugueses (na construção civil, distribuição alimentar, energia, etc etc) são “nano-entidades” à escala mundial, pelo que os agrupamentos de empresas, sobretudo voltados para estratégicos mercados externos, deveria há muito ter sido opção nacional.

Finalmente, e talvez o mais importante dos condimentos do sucesso coreano, o investimento público em educação. Hoje, o modelo educativo coreano contém inúmeras “boas práticas” mundiais, fomentando o conhecimento das ciências exatas e estimulando competências para a economia do conhecimento e para a sociedade da informação, afinal de contas aquilo que hoje faz mover o mundo.

Com a “estratégia do pastel de nata“ não chegaremos a lado nenhum. Mais vale ir a Seul aprender intensivamente como se faz.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

DEMITA-SE SENHOR PRESIDENTE!


Declaração de interesses: nunca votei em Cavaco Silva, quer para Primeiro-Ministro quer para Presidente, porém reconheço alguns méritos no seu primeiro mandato presidencial. Advertência feita, vamos ao que interessa.
Os ilustres constitucionalistas Gomes Canotilho e Vital Moreira são autores de um livro célebre – “Os Poderes do Presidente da República” - que deveria estar presente na mesa de cabeceira de Cavaco Silva e ser relido quase diariamente. Sobretudo no contexto atual do país e da europa.

Portugal vive hoje sem a sua maior figura de referência: o Presidente da República. Aquele que deveria exercer uma “magistratura de influência” (na definição de Mário Soares), ser o catalizador da unidade nacional e o garante da estabilidade necessária para mudar, simplesmente não existe!
Cavaco perdeu a noção política das coisas. Alguém que, como ele, se permitiu comentar sobre os respetivos rendimentos num momento em que muitas centenas de milhares de portugueses não têm para sobreviver é um Presidente alheado da realidade coletiva.

Alguém que, como ele, ainda ontem, cancelou a ida a uma escola de Lisboa por receios de ouvir críticas estudantis é um Presidente autista e amedrontado com o pulsar social. O tal sentimento de angústia que ele deveria procurar compreender e ajudar a superar nos termos dos seus poderes constitucionais.
Navegando pelas redes sociais percebe-se como Cavaco perdeu o país e como se transformou numa espécie de anedota nacional. Como republicano lamento sinceramente.

Ser Presidente implica ter coragem política, como outros no passado recente que dissolveram a Assembleia da República. Ser Presidente exige ter uma simbiose com o sentir popular, como outros que hoje não o sendo mais ainda a têm. Ser Presidente acarreta a responsabilidade, agora mais do que nunca, de estar na base das soluções e não ser mais um problema ou interpretado como um mero custo democrático.
A coisa chegou a tal ponto que nem há mais espaço para dizer “deixem-no acabar o mandato com dignidade”, como fez Soares quando Cavaco era PM.

Demita-se, pois, Senhor Presidente.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

ERA O QUE MAIS FALTAVA!


Portugal está mal? Está. Mas ainda não perdeu a face nem a dignidade. Somos uma das nações mais antigas do Mundo e, por isso, o respeito é devido.


O Presidente do Parlamento Europeu, o alemão Martin Schulz , criticou com desfaçatez o governo de Portugal por apelar ao investimento externo no nosso país, designadamente junto de angolanos.


O Senhor Schulz ou é burro ou anda distraído. Arriscaria dizer que talvez as duas!

Desde quando um político alemão, seja ele de que partido for e tenha mais ou menos peso institucional na Europa, tem legitimidade para se pronunciar sobre as opções diplomáticas de Portugal? Desde quando se arroga no direito de condicionar ou comentar as possíveis parcerias económicas que o governo português deseje realizar? Ora esta!


Mais grave se torna, quando os espúrios argumentos assentam na demagogia mais profunda. Diz o Senhor Schulz que a entrada de capital angolano (ele deveria estar a pensar também no brasileiro, no chinês e em tudo o que não seja europeu) conduzirá ao “declínio de Portugal”. No declínio já nós estamos. E alguns dos (muitos) responsáveis têm assento em Bruxelas, onde o Senhor Schulz passa três dias por semana enlevado em mordomias mil.


Leia-se (com esforço para não sorrir) as deliciosas considerações do Senhor Schulz para criticar o apelo português a capitais estrangeiros: “porque não defendemos o nosso Estado de direito, e o modelo dos direitos do homem, e uma crescente capacidade económica, para desafiar, não só do ponto de vista económico, mas também de democracia política? [...] Se não tomarmos rapidamente esta decisão, a Europa tornar-se-á irrelevante”. Uma vez mais o dito Senhor é burro ou anda distraído.


A Europa é cada vez mais irrelevante do ponto de vista económico. Resta-nos a importância do legado histórico e de alguma tradição social. No mais, foi na Europa que tiveram lugar genocídios perpetrados por conterrâneos do Senhor Schulz, já que veio agora falar de direitos humanos.


Enfim, Portugal só tem uma saída para a crise: internacionalizar o mais possível a sua economia e isso passa por colocar os produtos e empresas portuguesas nos mercados em expansão (que não é o caso europeu) e atrair capital estrangeiro para gerar emprego, o tal que também não vem da Europa. Por tudo isto, o Senhor Schulz perdeu uma boa oportunidade para estar calado.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

SEM VERGONHA!


Em Espanha, o governo de direita recentemente eleito acaba de anunciar que vai rever a Lei da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG), num injustificado retrocesso civilizacional. Aqui, o governo português, também de direita, já anunciou que pretende muito provavelmente fazer o mesmo. As más práticas replicam-se...

Num caso como noutro estamos perante embustes do tamanho do défice! Na verdade – e a direita é exímia nisso – os governantes de um e de outro lado da fronteira estão-se borrifando para a saúde pública, para os direitos das mulheres e para o combate ao aborto clandestino. Este tipo de decisão, num caso, e anúncio noutro, corresponde a uma manobra antiga de diversão, isto é, criar um fato paralelo que distraia as mentes face ao essencial.

Portugal, como Espanha, vivem hoje os momentos sociais e económicos mais difíceis desde a implantação das respetivas democracias. O desemprego atinge as mais altas taxas de sempre, o poder de compra nunca foi tão escasso, as empresas definham sem mercado, a banca está comprometida sem igual, etc etc. Ora, e perante este cenário pré-catástrofe os governos de direita eis que tiram da cartola a necessidade de rever a Lei da IVG, pois isso sim impacta no quotidiano das pessoas e vai, com certeza, mudar o rumo das coisas...

Lamentável! Vergonhoso! A direita sabe que o tema do aborto mobiliza consciências, divide, agita opiniões e tem espaço mediático, por isso o “show off” premeditado. Enquanto o “zé” estiver ocupado no café a discutir sim ou não ao aborto, enquanto nas missas se fizem sermões sobre o tema, enquanto as televisões alimentarem debates fraturantes, o governo descansa...tem mais tempo para pensar como (não) enfrentar a crise!

Como se não bastasse, ouvindo os responsáveis da direita, em Portugal e em Espanha, usam o mesmo argumento: foi uma promessa eleitoral e por isso está legitimada. Legitimada? Uma porra! Na verdade, também prometeram não aumentar impostos e conter o desemprego e nenhuma das duas está a ser realizada. A legitimidade democrática é outra coisa, bem mais séria e responsável!

Para já, perguntem às milhares de mulheres portuguesas, a maioria de baixa condição económica, que deixaram de abortar (e de correr risco de vida) em abortadeiras de vão de escada qual a respetiva opinião. Isso sim, conta e legitima!