terça-feira, 27 de outubro de 2009

GOVERNO NOVO, VIDA NOVA!

Os comunistas costumam dizer a propósito de remodelações que as mesmas são irrelevantes, pois em grande medida o que interessa são as políticas e não as pessoas ou os protagonistas. Ora, seguirei à risca este comentário, que se transformou num jargão, para qualificar o actual governo, que acaba de tomar posse.

Falarei, então, das políticas e não das pessoas.

O maior desafio de Sócrates & Companhia é, obviamente, gerar emprego, que permita, por um lado, diminuir drasticamente os números do desemprego e, mais, criar uma massa de trabalhadores crescentemente qualificados. Só assim a economia nacional poderá desenvolver-se e o país ser mais competitivo.

A questão essencial é perceber em que sectores de actividade se poderão gerar oportunidades de emprego. Isto, no fundo, implica que se compreenda qual o rumo que se pretende para o país, quais as áreas estratégicas: turismo, energia, saúde, cultura,…? Quais? Todas ou apenas algumas?..

Posto isto, a segunda prioridade é criar definitivamente mecanismos para a internacionalização das nossas empresas. Para o efeito o governo deve internamente colocar esta prioridade na agenda não apenas do Ministério da Economia, mas sobretudo dos Negócios Estrangeiros. Uma diplomacia económica a sério, feita por diplomatas mas também por quem não abusa dos “punhos de renda”e sabe como colocar no radar internacional os nossos produtos e serviços.

Neste domínio está tudo por fazer, não obstante o esforço efectivo (sobretudo voluntarista e pessoal) do Primeiro-Ministro na anterior legislatura, mas que depois não era acompanhado…
Este desiderato implica, forçosamente, a revisão de sistemas de incentivos públicos e de fiscalidade, sobretudo em áreas onde manifestamente já somos competitivos e inovadores ou teremos de passar a ser. Tratar tudo por igual é meio caminho andado para perdermos foco, tempo e oportunidades.

Finalmente, creio, que a questão do “aging” (envelhecimento da população) e, reciprocamente, da baixa natalidade deveriam ser claras apostas políticas.

Senão vejamos: há muitos milhares de portugueses reformados, que poderiam dar o seu contributo cívico e social, desde que criados programas públicos para o efeito. Gente que vai envelhecendo por ociosidade… e que estaria disponível para ajudar o país e os outros. Criar, em suma, riqueza social!

Importa, por outro lado, sublinhar que existem, neste domínio, inúmeras oportunidades de negócio, essencialmente, se levarmos em linha de conta os potenciais consumidores que representam milhões de reformados do norte da Europa que sonham com o nosso sol e praia!..

Quanto à baixa de natalidade, apesar dos esforços feitos com a nova prestação de apoio à gravidez e com o aumento do abono de família, a verdade é que as famílias elegíveis deveriam ser muitas mais. A classe média em Portugal é uma banda muito larga e, infelizmente, por vezes são considerados ricos sem o serem.

Assim, deveria haver um forte impulso e apoio financeiro para o 3º filho, que, tal como na Austrália, garante a manutenção/reprodução ou reposição da população e, obviamente, um sistema de incentivos fortes às empresas para a criação de creches e actividades extra-curriculares, que complemente o sistema público, sobretudo dirigido às camadas mais desprotegidas.

domingo, 25 de outubro de 2009

DEMOCRACIA DIGITAL XXXI


Começou um novo ciclo político no país, eis porque é oportuno falar em novos desafios para a estratégia nacional de digitalização.


Depois do “e-escola”, do “Novas Oportunidades” e do “e-escolinha” (Magalhães) resta-nos a população portuguesa mais envelhecida, cujos níveis de info-exclusão são ainda evidentes.


Ora, pois, uma oportunidade política! Desde logo, para reforço da credibilidade do governo estendendo à população mais envelhecida instrumentos de inclusão por via da formação e da literacia digital. Tal significaria consistência estratégica visto que dá a noção de plano integrado de acção governativa e não um conjunto de iniciativas dispersas no tempo e no espaço com uma lógica mais táctica e/ou até eleitoralista.


A população mais envelhecida, designadamente os reformados, poderiam contribuir mais activamente em vários domínios através da respectiva inclusão digital e seria uma oportunidade única de os relacionar com o modelo formativo criado para o “e-escolinhas” e “e-escolas” numa aposta transgeracional.

O “saber fazer” dos mais velhos aliar-se-ia à vocação digital dos mais novos numa experiência “win-win” singular, com ganhos evidentes para o país do ponto de vista social, cultural e até económico.

O fechar do ciclo com um programa tipo “e-senior” permitira dar rosto ao processo de aprendizagem ao longo da vida, hoje comprovado como decisivo nas sociedades mais envelhecidas como a europeia.

Envolver neste desiderato “Big Bet” multi-ministério vários parceiros privados e públicos é a chave do sucesso, donde se aproveitaria a rede já existente de Universidades Séniores, do INATEL, de Fundações e de IPSS para fazer de Portugal o 1º país do Mundo a adoptar esta solução de info-inclusão global.


Publicado no Jornal OJE

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

POR QUE CAEM COMO TORDOS NA FRANCE TELECOM?...

Em 1935, já com Salazar no poder, é criada a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), designação típica de regimes fascistas. De igual modo, aliás, o lema nazi colocado à entrada dos malfadados campos de concentração era “Arbeit macht frei”, ou seja, “o trabalho liberta”. Em síntese, a ideia de que o trabalho dá saúde e faz crescer já vem detrás…

Todavia, os tempos modernos trazem situações estranhas e absurdas para os modelos actuais. Veja-se o exemplo da France Telecom, onde se verificaram 20 suicídios nos últimos 18 meses! Tomam comprimidos, enforcam-se, saltam das janelas,… servem todos os meios para por fim à vida. Enfim, o caso tornou-se um problema nacional levando mesmo à intervenção do governo.

Felizmente, a minha experiência pessoal é totalmente distinta. Trabalho numa das maiores empresas do Mundo e que, no caso português, é considerada há quatro anos consecutivos “A melhor empresa para trabalhar” por entidades externas e independentes. Um caso oposto, portanto, ao que descrevi acima.

Na verdade, a maioria das empresas ainda não procede actualmente a um exercício de introspecção para avaliar da respectiva “saúde” na visão dos colaboradores, conduzindo muitas vezes a: desconhecimento profundo do quotidiano laboral; adopção de práticas de gestão desfasadas do necessário; imposição de regulamentos internos draconianos que estão longe de ser eficazes, etc etc.

Nas empresas cujo “scorecard” de gestão prevê precisamente a avaliação interna e mecanismos de participação de todos na construção de um ambiente de trabalho saudável – de que a Microsoft é um excelente exemplo - rapidamente se percebe que a melhor empresa é aquela que nos realiza enquanto pessoas – que somos antes de colaboradores – e percepcionamos como uma extensão do nosso ambiente natural e familiar. Fazer dos colaboradores pessoas diferentes do que são na verdade só trará maus resultados.

Pois bem, o melhor modelo já existe, longe de ser o ideal que está sempre em construção, porquê insistir em práticas antigas?.. E isto serve para o sector privado e, em especial, para o público.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

DEMOCRACIA DIGITAL XXX


O Magalhães foi uma pedrada no charco no mundo educativo. É inquestionável a mais-valia e o potencial desta ferramenta tecnológica. Depois do ano de lançamento nas escolas portuguesas é tempo de aprofundar o conceito educativo que lhe está subjacente: modernizar o modelo de aprendizagem usando as novas tecnologias.

O Magalhães é apenas uma plataforma sobre a qual se podem integrar um sem-número de soluções, serviços e produtos tecnológicos, visando as mais modernas técnicas pedagógicas.
Imaginar que o telemóvel – até aqui proibido e associado à indisciplina na sala de aula – pode ser um instrumento de aprendizagem importante, assim como leitor de MP3 ou a própria consola, parece-me um ganho ao alcance de todos, basta para tanto definir uma nova estratégia educativa.

São muitos os estudos que confirmam o desinteresse dos estudantes pelas matérias escolares e pelo período que passam na escola, todavia os mesmos inquiridos são muitas vezes geniais no modo como usam os adereços típicos do seu tempo, obtendo por essa via algum conhecimento e saber. Ora, importa pois perceber que a escola da modernidade – a Escola do Magalhães – deve construir-se com o maior número de ferramentas tecnológicas e com um novo modelo de aprendizagem que vá ao encontro do estilo de vida das gerações digitais. De outro modo, o fosso será crescente e os professores (por muito qualificados que sejam) jamais conseguirão combater a atracção do smartphones, das consolas ou dos leitores de MP3.

Retive um exemplo que li: no Japão, alunos de uma escola secundária criaram uma novela através de SMS. Ou seja, fruto do esforço criativo e colaborativo de vários estudantes gerou-se uma obra. Os professores confirmaram que os mesmos alunos jamais produziriam tal resultado segundo o modelo clássico: lápis e papel numa aula de 60 min.

Dá que pensar!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

UMA QUESTÃO DE COERÊNCIA!

Numa empresa, quando os resultados financeiros não são satisfatórios há, regra geral, duas consequências: os gestores colocam os seus lugares à disposição ou os accionistas convidam novos timoneiros. Sem mais.

Numa equipa de futebol, quando as vitórias não surgem ao treinador resta pouco tempo de “vida” profissional. A muito breve trecho será afastado pela direcção ou, o próprio, abandona de mote próprio o respectivo lugar.

Nas companhias modernas, altamente competitivas e com sistemas internos de avaliação muito exigentes (mas naturalmente compensatórios), os colaboradores que não atingem patamares mínimos de compromisso são convidados a sair e a procurar vida nova noutro local.

Enfim, os exemplos podem suceder-se e são infindáveis nos mais diversos sectores de actividade, tendo sempre presente que a competitividade, a excelência e o brio são os objectivos máximos a atingir.

Até aqui alguma novidade? Algum espanto? Não, sinceramente, julgo serem os critérios adequados para uma convivência saudável, séria e justa. E só assim se conseguem atingir os melhores resultados!

Ora, a primeira pergunta é: por que motivo na política estes padrões de qualidade e de exigência se não conseguem impor? Ou seja, por que razão nas ressacas eleitorais todos, ridiculamente, invocam a vitória para assim justificar a respectiva existência e manutenção de “status quo”?..

É absurdo que quem não consegue durante ciclos sucessivos alcançar resultados positivos se mantenha a dirigir organizações, como se as derrotas fossem pormenores sem relevância e que outras alternativas não existissem.

Por estas e por outras a vida política e a participação partidária são cada vez menos apelativas, porquanto as regras parecem – sem razão aparente! – mudar relativamente ao que se passa nas empresas, nos bancos das universidades ou na vida em geral.

Mas, mais perverso ainda, é observar o que alguns conseguem fazer: transformar as vitórias dos outros nas suas e as suas derrotas nas responsabilidades de outros.

Por exemplo, arrogar-se como sendo sua a vitória de um candidato a uma câmara para a qual em nada se contribuiu (ou até quem sabe se destruiu…) é de uma desfaçatez tremenda. Tão grave quanto limpar-se a água do capote numa derrota de um candidato que foi exclusivamente imposto por si!

Mas, claro, tudo isto é uma questão de coerência!..

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

DEMOCRACIA DIGITAL XXIX


Hoje, discute-se, um pouco por todo o mundo da relação entre a produtividade – ou a falta dela – e o acesso às redes sociais ou à caixa de correio no espaço laboral.

Ora, em Portugal, é no mínimo bizarro o debate, pois a ausência de produtividade é um tema crónico e muito anterior à existência de redes sociais ou da internet. Todavia, importa distinguir claramente entre consultar o “mail” e actualizar o Facebook. Na maioria dos casos, sobretudo no sector das novas tecnologias, o primeiro é uma ferramenta indispensável de trabalho, podendo as redes sociais sê-lo também.
Apesar de existirem estudos para todos os gostos, a verdade é que há muitas empresas onde o acesso à internet e às redes sociais é livre – ou até mesmo estimulado profissionalmente, porque fomenta o network, promove a cultura da empresa ou mesmo os respectivos produtos/serviços – e os níveis de produtividade laboral são nestes casos muito elevados.
No meu entender, deve imperar o bom-senso e a auto-regulação individual. Aliás, políticas muito restritivas nas empresas, nas administrações públicas ou noutras instituições não garante que não existam fugas e danos.
O conceito de “democratização da intimidade”, introduzido pela antropóloga Stefana Broadbent, associado às redes sociais é interessante, todavia, na internet como fora dela, deve reger-se pelas mesmas regras: sensatez, cautela e proporcionalidade.
De igual modo, o smartphone, o computador e net são extensões naturais da actual geração de “digital natives”. Retirar-lhes esses elementos seria amputá-los na sua identidade. O resultado seria desastroso, mais importante é alertar para os riscos de um uso impudente ou excessivo. A pedagogia, aqui como em tudo, nunca é demais.

O VOTO NAS PESSOAS OU NOS PARTIDOS?..

Nas eleições autárquicas os representantes estão (supostamente) mais próximos do povo, logo tal facto facilitará a percepção pública da obra feita e, consequentemente, da avaliação a fazer. Regra geral, a abstenção é mais baixa e os movimentos de cidadãos independentes mobilizam vontades tantas vezes adormecidas. Em suma, a motivação para uma participação política mais activa e responsável é (teoricamente) maior.

Diria mesmo, que o grau de maturidade democrática de uma sociedade afere-se por diversos indicadores, sendo que a capacidade de distinguir o essencial do acessório é, a meu ver, um dos mais importantes. Por isso mesmo, queria acreditar (significa que ainda não acontece) que os cidadãos votam nos melhores candidatos independentemente da sua matriz partidária.

Achar que, hoje em dia, o sentido do voto é definido pela qualidade intrínseca dos candidatos mais do que pela coloração partidária é pura ingenuidade. Infelizmente!

Isto, dito assim, é sinónimo de que nem sempre ganham os melhores protagonistas, as melhores ideias e os projectos mais sólidos. É a democracia a funcionar, dir-se-á, pois é, mas não imune a críticas, pois vão-se perdendo activos importantes. Então nas eleições autárquicas, há gente que tantas vezes decide sair da sua zona de conforto para se expor e, depois, confrontados com escolhas pouco racionais acaba desiludida e não mais volta. Para estes o sistema raramente guarda lugar. Conheço uns tantos casos…

Ora, a verdade é que a “partidocracia” acaba por prevalecer, apesar dos avanços legislativos, e tantas vezes a cruzinha é mobilizada pelo símbolo partidário mais que pelo rosto e ideias dos protagonistas.

Há exemplos para todos os gostos: desde os caciques locais que, mesmo mudando de partido, acabam por vencer (dispenso-me enumerar as razões), vejam-se os exemplos de Isaltino e de Valentim até aos candidatos que mudando de partido acabam perdendo as eleições, pois a percepção negativa da mudança de camisola é mais forte que os atributos dos próprios. Não há pois um critério uniforme, nem acredito que seja possível estabelecer um modelo científico de análise.

Já aqui escrevi, num passado recente, que, por exemplo, Coimbra precisaria, neste momento particularmente crítico, de um choque de ânimo, de energia e de criatividade promovido por gente suprapartidária, com diversas proveniências ideológicas. Ora isso não sucedeu e, observando as sondagens existentes somos levados a concluir que tudo ficará na mesma. Será, pois, compreensível que perante tanta omissão, inacção e letargia o povo queira continuar a escolher os mesmos?.. Ora, a escolha é indubitavelmente legítima, mas não corresponde à necessidade deste tempo. Estamos ainda longe do ideal.

O sempre polémico Nietzche defendeu que «um político divide o ser humano em duas classes: instrumentos e inimigos». Fico, assim, com curiosidade sobre como definiria o filósofo a divisão feita pelo eleitor do político.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

DEMOCRACIA DIGITAL XVIII

Nos últimos meses têm sido muitas as surpresas nas redes sociais onde habitualmente me insiro: informação a rodos; a adesão inesperada de muita gente; o reencontro de amigos de longa data; a percepção da importância que os políticos dão à “coisa” e discussões vivas e espontâneas sobre os mais diversos temas.

Não é por isso, para mim, novidade o que um estudo recente da consultora Nielsen vem confirmar: o tempo que os norte-americanos dedicam às redes sociais e blogues triplicou no espaço de um ano, equivalendo, assim, já a 17% do tempo global de navegação na net. Impressionante este pulo exponencial!

Isto significa também que há uma nova massa de utilizadores – que não apenas os “early adopters” e “digital natives” – que é transversal aos diversos grupos sócio-económicos e etários, dando volume ao tráfego relativo às redes sociais e retirando-os dos meios tradicionais (designadamente a TV). Quantos de nós não ficámos já surpreendidos por ver “seniores” ou gente supostamente excluída da net a pedir-nos que aceitássemos a respectiva adesão à rede?..

Ainda de acordo com aquele estudo, em algumas áreas, o investimento em redes sociais e blogues é particularmente forte: entretenimento (812% de aumento face a 40% de crescimento do investimento total on-line); viagens (364% de aumento face a 11% de diminuição do investimento total na rede); serviços financeiros (98% de aumento face a 11% diminuição do total on- line)…

Não por acaso as empresas observam, crescentemente, as redes sociais como espaços comerciais por excelência, sendo que nem todas têm adoptado a melhor estratégia, que aqui significa desde logo a menos intrusiva possível. Mas, a prova de que há um novo mercado em afirmação é que, pela 1ª vez no Reino Unido, os investimentos publicitários na net foram superiores aos da TV.

Este é o caminho!

Publicado no Jornal OJE

terça-feira, 29 de setembro de 2009

A CAMINHO DO ABISMO


Diversas edições do Inquérito Social Europeu, levado a cabo por entre os vários países que compõem a UE e a Europa central, confirmam que os cidadãos portugueses estão descontentes com a qualidade da respectiva democracia. Só os russos, húngaros, ucranianos e búlgaros estão mais descontentes e politicamente mais desinteressados.


Esta tendência tem vindo a acentuar-se desde 2001, sendo que o nível elevadíssimo de abstenção nas recentes eleições legislativas e europeias são disso a prova irrefutável. Porém, ninguém pára para pensar!

O rescaldo nacional do acto de domingo passado já foi sobejamente feito, por isso mesmo vou atentar no aspecto distrital.

Foi, obviamente, uma surpresa (e quem disser o contrário, mente!) a eleição de um deputado do CDS/PP por Coimbra. Não está em causa o mérito pessoal do candidato, mas antes um conjunto de circunstâncias que permitiram a sua eleição. São essas que interessam agora.

Serpa Oliva beneficiou em grande medida da capacidade e da eficácia política de Paulo Portas. É um caso sério em campanha. Tão assertivo quanto populista e perigoso; todavia o que diz parece soar bem, fazendo o povo esquecer que em 3 anos no governo nunca praticou nada do que agora advoga e exige.

Mas, acima de tudo, o CDS/PP no distrito de Coimbra usufruiu do facto do PSD estar desacreditado e, evidentemente, da fraca prestação de Manuela Ferreira Leite. O eleitorado de Serpa Oliva não é dele nem do CDS. É, sobretudo, do PSD e de uma direita conservadora que não havendo alternativa preferiu fazer um voto duplamente de protesto: contra Ferreira Leite e contra a maioria de Sócrates. Curiosamente são aqueles que, hoje, mais torcem para que Sócrates se entenda com Portas…

O PSD em Coimbra – apesar do esforço regenerativo de alguns – viveu muitos anos longe da qualidade mínima exigível e está agora a pagar esse preço. Não é, em suma, alternativa a coisa nenhuma!

Observemos agora o caso Bloco de Esquerda: ao contrário do CDS/PP, José Manuel Pureza tinha praticamente o lugar assegurado, fruto de um crescimento local continuado, do “hype” nacional e da qualidade intrínseca do próprio candidato.

Mas, mais importante, o BE cresce sempre à custa do PS. No distrito de Coimbra é fácil de compreender porquê:

O PS local há muito que não tem ideias nem propostas credíveis e mobilizadoras; há muito que falta quem comunique de forma diferenciada; há algum tempo que não existe no PS quem seja considerado no meio social, académico e empresarial. Dizer o contrário (por muito que possa parecer simpático) é farisaico e distorce a realidade.

Dizer – como alguns (os suspeitos do costume) – que a culpa é da cabeça de lista é tapar o sol com a peneira. Ana Jorge era a 2ª dos ministros mais populares e, conforme se viu, fez uma campanha sóbria e igual a si própria: séria e credível. O que se pede a um médico emprestado à política. Conseguiu, aliás, na defesa do SNS fixar gente de esquerda que de outro modo engrossaria o voto no BE.

Aliás, a verdade é que nem quando Sócrates, o Ministro do Ambiente, impôs a co-incineração a Coimbra o PS aqui perdeu. Não! Ganhou e elegeu seis deputados. Significa que o problema não é Sócrates, mas antes os que há vários anos (os do costume) gerem o PS virado sobre si próprio, alheio ao que se passa na cidade e no país. Sem imaginação e, mais grave, sem reconhecimento.

Veremos agora quais os resultados autárquicos e se, então sim, têm o decoro de se afastar. Não se pode exigir a Ferreira Leite consequências que os próprios em casa não assumem!!

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

CIDADÃOS DO MUNDO


Coimbra guarda até hoje a classificação de “Lusa-Atenas” por ser associada ao conhecimento e ao saber, mas também pelo seu cosmopolitismo. Aqui, desde sempre, foi chegando gente de todas as paragens. As diferentes origens, vivências e experiências ajudaram a construir a multi-culturalidade muito própria de Coimbra. Deram-lhe singularidade e enriqueceram-na.


Basta recordar que nomes como Antero de Quental, Eça de Queirós, Almeida Garrett, José Afonso, Miguel Torga ou Manuel Alegre - todos indissociáveis do imaginário coimbrão – nenhum nasceu em Coimbra, mas adoptaram-na como sua. E Coimbra quer tê-los como seus, sempre!

Dizer-se com desdém, nos dias que correm, que alguém é “paraquedista” – ou seja de fora de Coimbra - querendo com isso diminuí-la nas respectivas capacidade e legitimidade, é próprio de quem tem as vistas curtas e para quem o Mundo começa e acaba no respectivo umbigo.

Afinal de contas, o mal de Coimbra – sim, desta Coimbra de hoje – é devido á inércia e a incapacidade dos que aí estão há tempo demais e nunca por nunca dos que querem agarrar o facho da modernidade, ainda que de Coimbra não sejam oriundos.

Mas, do meu ponto de vista, que me comunico diariamente com pessoas de todos os continentes; que leio jornais de diversos países; que tenho uma filha com dupla nacionalidade; que navego na internet como se o Mundo estivesse ao alcance dos dedos (e está!); que tenho nas redes sociais amigos nas mais diversas geografias; que habito num mundo global…ouvir dizer que alguém só por ser da Lourinhã não conhece Coimbra e – pasme-se! – não tem qualidades para a representar no parlamento ou no governo é, no mínimo, risível e só aparece à míngua de melhores argumentos.

Acresce, que há até a obrigação do conhecimento da nossa lei fundamental – a Constituição da República – que prescreve que os deputados são da Nação e não do distrito, representando por isso o todo nacional e não o somatório das partes.

Mais importante do que a nossa naturalidade é a nossa obra, a nossa herança cívica. No fundo, as marcas que se deixam - sobretudo os que têm responsabilidades públicas - são os factores distintivos que devem, em tempos de escolha e de selecção, por isso mesmo ser avaliados.

Ser de Coimbra, só por si, não é garantia de coisa alguma. Já os vi muito competentes e tremendamente desastrosos, como em todo o lado. Já os vi num provincianismo assumido deslumbrados com Lisboa, esquecendo rapidamente de onde vieram… Aliás, já me habituei a vê-los no estádio a puxar pelo Benfica, pelo Sporting e Porto contra a minha Briosa!..

Por isso mesmo ser Coimbra já não é garantia de nada! Neste caso prefiro os de fora com obra feita!

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

DEMOCRACIA DIGITAL XXVII


Algumas vozes defendem que a democracia digital se reforçaria na razão directa do aumento das soluções de “open source” (doravante software livre) adoptadas pelos governos e administrações públicas.


Por definição o software livre permite o acesso ao código do produto, dando direito a utilizá-lo bem como a modificá-lo. Tudo isto por oposição com as soluções proprietárias (ex. Microsoft), que implicam o pagamento de licenças de utilização.

Anda muita confusão no ar! Importa, pois, analisar cuidadosamente esta questão.
Independentemente da categoria de software (livre ou comercial), os governos - tal como qualquer empresa privada - devem optar pelo software que melhor garantias ofereça no preço/qualidade, na facilidade de uso e no serviço pós-venda.

Impor o SW Livre como solução exclusiva (assim desejam os seus defensores) na administração pública viola o princípio da neutralidade tecnológica que se impõe a um Estado, além da livre concorrência essencial ao mercado. E, tal não é coisa pouca!

Finalmente, muito do SW livre que existe em alguns entes públicos é pago a empresas com escopo lucrativo que o comercializam; além de que os custos encobertos (falhas de segurança e de suporte técnico, obsolescência,…) comprovam que aquela solução é tudo menos gratuita ou barata!

Foram, nos últimos anos e em diversos países, efectuados múltiplos estudos sobre este tema: Report KBSt (Alemanha), Report QinetiQ (Reino Unido) e o Report Mitre (Estados Unidos). Todos eles coincidiram ao considerar que o software livre não constitui uma alternativa superior ao software comercial, nem em termos do seu custo total, nem em segurança, nem em inovação.

O preconceito é, pois, mau conselheiro!


Publicado no Jornal OJE

terça-feira, 15 de setembro de 2009

APOLOGIA DO VOTO ÚTIL


O dicionário Priberam da língua portuguesa define “útil” como: “o que é necessário; que tem préstimo ou utilidade; proveitoso; vantajoso.” Pois bem, aproveitemos então esta definição para melhor compreender o que pode ser um voto útil nas próximas eleições.

Primeira premissa: apenas dois partidos têm possibilidade de vencer as eleições. Ganhar em política significa poder governar e, assim, influenciar o nosso destino colectivo; pelo que não ganhar é igualmente digno e faz parte das regras democráticas, mas tem muito menos impacto e influência nas nossas vidas.
Assim sendo, e ainda que em tese os votos sejam todos iguais, a verdade é que o peso eleitoral das nossas opções são diferentes. Votar no PS ou no PSD não é o mesmo que votar nos demais partidos. É a diferença entre definir quem ganha e não influenciar coisa nenhuma.

No actual contexto – é sabida a crise económica em que ainda nos encontramos e a instabilidade social inerente – o voto de cada português assume como nunca uma importância capital. Cada voto poderá fazer a diferença, não apenas entre quem ganha mas o que pode significar essa vitória.

Repare-se que o pior cenário para o nosso país seria juntar à crise económica uma crise política fruto de instabilidade e de ingovernabilidade. Ora, é exactamente isso que estará em causa nestas eleições: criar as condições para um partido ganhar com vantagem suficiente para prosseguir reformas e assim minimizar os efeitos da crise.

Voltemos, pois, à definição inicial: votar num dos dois partidos potencialmente ganhadores é, face ao contexto actual, necessário, por isso mesmo útil; votar num dos partidos que não têm matematicamente qualquer hipótese de governar não tem préstimo, por isso mesmo é inútil.

Posto isto, resta fazer a segunda opção: perceber qual dos votos úteis é mais vantajoso e proveitoso. O mesmo será dizer: votar no PS não é o mesmo que votar no PSD.

Não parece tarefa difícil já que ao longo destes últimos dias se perceberam – como nunca - as diferenças tamanhas entre os dois maiores partidos e, sobretudo, entre os dois protagonistas.
Ora, para que um voto útil seja verdadeiramente proveitoso não basta contribuir para quem ganha, importa olhar para o futuro e prosseguir o movimento reformista dos últimos anos. É que agora é a sério, mesmo!

domingo, 13 de setembro de 2009

DEMOCRACIA DIGITAL XXVI

É comum ouvirmos que as gerações mais jovens escrevem cada vez pior. Os pais queixam-se e os professores até editam livros com compilações de erros. Eis que muitos vociferam contra as novas tecnologias como causadoras desta suposta perda de qualidade e habilidade literária. Aliás, quantos de nós não demonstrámos já estupefacção com os sms que crianças e adolescentes trocam entre si, estropiando a língua de Camões?

Pois bem, um estudo muito recente veio contrariar essa tendência. O “Stanford Study of Writing”, daquela famosa universidade e cuja leitura se recomenda vivamente, resultou de uma análise cuidada a catorze mil documentos escritos por crianças e adolescentes entre 2001 e 2006, que incluíam trabalhos de casa, posts em blogues, sms, conversações em chats, etc etc.

As conclusões são impressionantes: há como nunca, e por via do uso das novas tecnologias, um recrudescimento das habilidades para a escrita. Ora, sucede que hoje em dia os jovens escrevem mais, praticam muito na internet (chats, blogues, redes sociais) e adaptam-se aos meios e contextos. Por isso mesmo, entre si na troca de sms não é suposto produzirem tratados literários, mas ser sintético e objectivo; de igual modo, nos chats. Curiosamente, nas redes sociais, dada a heterogeneidade de contactos percebe-se uma evolução na qualidade do que é escrito em função do nível do destinatário.

Parece-me uma evidência indubitável afirmar que hoje se escreve muito mais que no passado – por isso mesmo é provável encontrar também mais pessoas que escrevem mal, pois a base aumentou! – e tal é feito num tempo que foi retirado à televisão e a brincadeiras de rua.

As novas tecnologias fizeram surgir uma “nova literacia”, evidentemente digital, que traz consigo o aumento de produção cultural e literária, sendo que os jovens têm a capacidade de distinguir os contextos e o inerente grau de exigência.
Publicado no Jornal OJE

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

MALDITA MATEMÁTICA!...

A invenção da matemática deve-se a outros povos que não os portugueses, porém, com certeza, por acaso da História, visto que ninguém melhor que nós para depender tanto dessa ciência exacta. Futebolisticamente falando, claro!

O acesso à fase final do Mundial na África do Sul é ainda possível. Esta é a resposta politicamente correcta, que sempre nos habituamos a ouvir da parte dos suspeitos do costume.

É, de facto, possível se nos enredarmos em contas e mais contas para alcançar a fórmula matemática do sucesso que, em síntese, depende mais dos outros que de nós próprios. Ora, este é sempre, na bola como na vida, um mau princípio: ficarmos dependentes de terceiros.

Eu diria que se formos apurados, por uma qualquer conjugação astral, é bom para a auto-estima nacional, bom para os jogadores que assim “abafam” mais uns milhares em prémios e bom para a seita de dirigentes que tem já raízes na FPF. Adia-se a solução de um problema.

Por seu turno, se a selecção nacional não for apurada o sentimento de crise agudizar-se-á, uns dirão que a culpa é do Sócrates, outros que é do Queirós e os suspeitos do costume arranjarão razões para sacudir a água do capote e ficar assim mais uns anos na FPF. Um clássico, portanto!

Enfim, o que, no meu modesto entender, precisaríamos era de compreender as razões fundas deste insucesso, visto que temos um conjunto de jogadores do melhor que há no Mundo, individualmente falando. Muitas das causas estarão no balneário, é certo, porém outras tantas na estrutura organizativa da FPF. Nos mesmos de sempre que há muito deixaram de compreender que saber sair é mais importante que conseguir entrar.

O mal do nosso país – no dirigismo desportivo como em muitos outros sectores – é que mantém nos cargos de maior responsabilidade uma geração sem energia e sem criatividade que não sente o pulsar das mudanças e que é incapaz de fazer o que é preciso.

Apesar de tudo, quero muito acreditar nos números e, com isso, na possibilidade matemática de nos apurarmos, todavia preferiria que tudo dependesse apenas da vontade e da força dos homens.

sábado, 5 de setembro de 2009

DEMOCRACIA DIGITAL XXV

A classe política portuguesa despertou inequivocamente para a internet. Os próximos actos eleitorais - aliás na senda do que está a verificar-se um pouco por todo o mundo nesta “Era Obama” – vão já decorrer sob o signo de uma sindicância digital. Ou seja, na actualidade, os cidadãos escrutinam e comentam como nunca as prestações e as ideias dos principais protagonistas políticos.

Por seu turno, os actores (candidatos ao parlamento e às autarquias) multiplicam-se em aparições virtuais e comunicações digitais: de debates com bloggers a programas construídos na net, passando pela divulgação “on time” da agenda de campanha, tudo vai acontecendo sem que seja preciso sairmos de casa para acompanhar. Basta “navegar”.

Resta saber se este frenesim termina no rescaldo da noite eleitoral ou prossegue para além dele. Político que queira ter futuro não pode desprezar a comunicação com as redes que já criou e alimentou. A relação com o eleitor digital tem de ser genuína e continuada, sob pena de ser contraproducente por perversa. A net tem riscos diversos: para os políticos o maior de todos eles é que fica um registo. Uma memória que não se apaga!..

A Netsonda, em Portugal, apresentou recentemente um estudo sobre as “Eleições & Internet” do qual resultam dados interessantes. Desde logo, um crescimento considerável dos que usam a net para analisar os candidatos (de 31% em 2005 passou agora para 60%); o acesso a sites noticiosos para obtenção de informação sobre as eleições legislativas é confirmado por 86% dos inquiridos e 50% dos inquiridos manifestam intenção de recorrer às redes sociais.

Veremos de que modo esta euforia digital servirá para promover o esclarecimento público e reduzir a abstenção. Esperemos, pois, pelos estudos seguintes…
Publicado no Jornal OJE