sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

DEMOCRACIA DIGITAL XLI


A nova vaga na internet: a Real-Time Web, tem no Twitter o seu maior símbolo. Isto significa que o instantâneo, aproximando cada vez mais o virtual da realidade, está a conquistar a atenção dos utilizadores em todo o Mundo, sejam empresas ou cidadãos.

Aquilo que poderia ser considerada uma ferramenta para puro voyeurismo social e a iníqua exposição pública – dizendo apenas onde estamos e o que fazemos - passou subitamente a ser um instrumento institucional, comercial e social poderoso. As empresas começaram a conquistar novos consumidores e a promover os seus produtos e serviços por este canal; as campanhas políticas preparam mensagens para este novo modelo de comunicação (v.g. Obama) e as revoluções sociais (ex. Irão) passaram a dar-se a conhecer ao Mundo por este meio.

Por isso mesmo é sem surpresa que sabemos, hoje, que há cinquenta milhões de actualizações diárias feitas pelos utilizadores do Twitter. Número impressionante! Acresce, que, num recente estudo, foi tornado público que a língua inglesa representa 50% dos “posts”, seguido do japonês (14%), do português (9%), do malaio (6%) e do espanhol (4%).

Ora, daqui resultam algumas conclusões: a adopção tecnológica por luso-falantes é uma evidencia; as ferramentas de real-time web são oportunidades imensas para os cidadãos, empresas e estados lusófonos; a existência de estratégias públicas para o mundo digital um imperativo.

Quem ficar fora deste proceso terá muita dificuldade em progredir. Já não se trata de um mero mito virtual. É mesmo realidade e instantánea!
Publicado no Jornal OJE

APOLOGIA DO CINZENTO


A democracia vive de alternância e de alternativas, por isso mesmo quanto mais opções tivermos mais simples e consciente se torna a escolha. O problema está no cinzento, naquilo que gera indiferença e não se distingue.

Uma oposição forte credibiliza o sistema e valoriza o próprio governo, porque o torna mais atento e mais eficiente. Isto tem faltado, manifestamente, nos últimos tempos, em Portugal.

O processo de escolha de uma nova liderança no PSD é, por isso mesmo, um momento não desprezível. Algo resultará: mudará o líder, mas o que mais poderá mudar? Nesta fase é uma incógnita.


Aliás, em bom rigor, muito pouco sabemos sobre o que pensam os candidatos do PSD. Como resolveriam o problema do desemprego? Como relançariam a economia nacional? Qual a aposta na educação? Continuariam com o Plano Tecnológico? Que ideias para reformar a Justiça?.. Sobre tudo isto ainda nada se disse.

Muito se tem dito e escrito sobre a crise das ideologias, de tal modo que se construiu a tese de que as eleições se ganham, regra geral, ao centro; numa massa eleitoral volátil que ninguém consegue identificar, mas que fica algures entre a esquerda e a direita. Ora, se isso existe será pois aí que os candidatos do PSD se quererão posicionar. Aqui está o primeiro risco: a ausência de compromisso e, consequentemente, de factores diferenciadores.

Mas, sobretudo, o poder não se conquista, perde-se. Quer isto dizer que o actual governo, cuja legitimidade eleitoral é inquestionável, tem todas as condições para governar – aliás, uma crise política nesta fase seria trágica para a nossa débil economia – e, portanto, deve prosseguir o seu rumo, dependendo, assim, da respectiva performance o sucesso ou insucesso desta legislatura, sendo, pois, um pouco indiferente – nesta data – quem será o senhor que se segue no PSD. Sócrates depende essencialmente de si próprio.

Seria, em suma, importante para Portugal que no PSD se travasse um combate entre o “preto” e o “branco”, retirando da zona cinzenta de conforto os candidatos.
Publicado no Diário As Beiras

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

JUSTIÇA: O PIOR DE TODOS OS MALES!


Esta semana o Bastonário da Ordem dos Advogados meteu, uma vez mais, o dedo na ferida: se as decisões judiciais não são respeitadas para que servem os tribunais?.. Foi mais longe mesmo e acrescentou que a Justiça no tempo da ditadura funcionava melhor.


Esta declaração, vinda de quem veio, deveria merecer a melhor atenção de todos os portugueses. Não apenas do Presidente, do Governo e dos deputados a quem estamos habituados a imputar responsabilidades. Na verdade, a crise profunda da Justiça portuguesa é, seguramente, o maior desafio que este país vive desde o 25 de Abril. É uma questão nacional que exigirá de todos o melhor contributo.

A Justiça é verdadeiramente a questão central dos muitos debates a que temos assistido nos últimos anos quando falamos de empresas, de direitos individuais, de relacionamento com o Estado, etc.

A falta de credibilidade e a perda de respeito pelos tribunais tem minado a confiança na própria democracia, pelo que os episódios mais recentes são apenas o corolário lógico e inelutável de um cancro que dissemina sem que os agentes políticos e judiciários tenham sabido reagir.

É certo que o desemprego é o nosso maior problema conjuntural, todavia, estruturalmente falando, a recuperação da eficácia e da credibilidade da Justiça afirma-se como o mais estratégico objectivo. Dele dependerá, em grande medida, a maturidade da própria democracia e a sobrevivência da nossa economia.

Senão vejamos: cepticismo, resignação, incredulidade, revolta e descrença, entre outros, são apenas algumas dos substantivos que acompanham a relação dos cidadãos e empresas com a Justiça.

Quantos cidadãos desistem de processar o Estado, porque acham que a decisão nunca chegará em tempo útil? Quantos empresários não recuperam créditos porque não acreditam no tempo e nas decisões dos tribunais? Quantos não decidem pelos seus próprios meios o que em rigor deveria ser decidido pelos tribunais?..

Todos nós, sem excepção, conhecemos casos de arbitrariedade, decisões irracionais, muitas sentenças extemporâneas e alguém que já foi vítima de má justiça. Ora isto é grave!

Assim sendo, a violação sistemática do segredo de justiça é, apenas, uma das faces visíveis da quebra das regras e dos princípios que presidem a um verdadeiro Estado de Direito. Passou-se a julgar na praça pública e no interesse do público, por contraposição a julgamentos nos tribunais e à luz do interesse público.

A comunicação social passou do papel à prática a ideia de que representa o 4º poder. É-o de facto! Quando os juízes vacilam já os jornalistas publicaram; quando as polícias investigam já os media condenaram, quando os tribunais sentenciam já o tema na comunicação social transitou em julgado! Está tudo ao contrário, lamentavelmente.

Volto ao Bastonário da Ordem dos Advogados, que além de ilustre advogado foi durante anos jornalista, para recordar que também ele invocou (diversas vezes) as violações sistemáticas das regras deontológicas por parte de jornalistas. Por outras palavras, o jornalismo em Portugal, salvo raras excepções, é de duvidosa qualidade e seriedade.

A actual crise económica obriga a puxar pela imaginação (ainda que perversamente) para se venderem mais edições, de preferência extras…Os tribunais e o direito não são mais limites, o objectivo é a sobrevivência e o “market share”.

Ainda não perceberam que vamos todos pelo cano. Todos, mesmo!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

DEMOCRACIA DIGITAL XL


Portugal carece de boas notícias. Os portugueses precisam, mais que nunca, de relançar a auto-estima. Ora, um bom exercício é atentarmos no caso da Escola Básica da Várzea de Abrunhais, algures no concelho de Lamego, bem no interior do país.


As dedicadas professoras (por que as há!) com o empenhamento dos pequenos alunos, estimulados pela existência do Magalhães, conseguiram criar um projecto educativo que colocou esta comunidade escolar na rota das tecnologicamente mais inovadoras do Mundo.

A Microsoft reconheceu e apoiou este projecto singular, conferindo-lhe uma distinção que apenas outras 30 almejaram. Isto é motivo de orgulho nacional. Merece, pois, ser divulgado e acarinhado o mais possível.

Perguntar-se-á: mas o que tem o projecto da Várzea de tão especial? Porventura, apenas a dedicação extrema dos seus actores, porquanto a tecnologia é igual à disponível em tantas outras comunidades escolares do país. Vale, porém, a pena distinguir os dois factores.

Não fora a existência do projecto Magalhães e a instalação do acesso à internet nas escolas portuguesas e nunca este tipo de exemplos surgiriam. Primeira nota, pois, para a opção absolutamente estratégica do governo pelo plano tecnológico, que já merece uma versão 2.0!..

Por outro lado, confirma-se que a construção de blogues, de páginas com vídeos, a integração da tecnologia no processo de aprendizagem, o estímulo à pergunta e à busca pela net são passos pedagógicos que dependem, essencialmente, da orientação do professor, pelo que a formação destes educadores no uso das TIC é absolutamente vital.

A confirmar a importância deste caso está um estudo europeu do IDC que revela que nos próximos 5 anos 90% dos empregos vão exigir competências em TIC!
Publicado no Jornal OJE

MUDANÇA TRANQUILA


Dizer que nos últimos anos nada mudou no futebol português é cometer uma injustiça. Pior: é afirmar uma inverdade!


Os casos polémicos diminuíram drasticamente, as arbitragens sob suspeita e as relações perversas entre dirigentes e árbitros deixaram de ser notícia quotidiana, os casos de polícia recuperam factos de um passado, que se deseja longínquo. Os órgãos disciplinares agem autonomamente e de forma saudável e a justiça desportiva funciona como ente de normal recurso. Apesar da crise, os números demonstram que os espectadores aumentaram.

Por muito que alguns dirigentes (rostos do dito passado) teimem em discursos incendiários e adorem alimentar a exaltação dos ânimos, por muito que a falta de “fair-play” grasse ainda por alguns túneis de acesso, a verdade é que muito mudou.

Evidentemente que “Roma e Pavia não se fizeram num dia”, pelo que acabar totalmente com práticas antigas levará tempo e mudar protagonistas mais ainda. Os problemas surgem, regra geral, não tanto por razões desportivas mas por motivos esdrúxulos…

Uma coisa é certa, os actuais responsáveis pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional propuseram-se três objectivos e, quase em final de mandato, todos estão cumpridos. Vejamos então: primeiro, dignificar o futebol nacional impondo regras de transparência na gestão e de verdade desportiva; segundo, dinamizar o calendário das provas de modo a dar maior competitividade ao futebol nacional e, terceiro, encarar o futebol como uma indústria associando-lhe regras modernas de gestão.

Ao abrigo deste espírito criou-se a “Taça da Liga”, adoptaram-se algumas medidas tecnológicas à organização do jogo, encontraram-se patrocinadores fortes para ambas as Ligas, deram-se os meios necessários para a disciplina desportiva actuar sem pressões ou constrangimentos, renovaram-se regulamentos e impuseram-se regras para o “fair-play financeiro” que protege atletas e clubes cumpridores.

Com certeza haverá insatisfeitos e revoltados. Há-os sempre. Não se pode agradar a todos. Fica a consciência tranquila de um novo (e irrefutável) ciclo que se abre e cujos resultados se verão a breve prazo.

Para o próximo mandato ficam três ideias força: a adopção crescente das novas tecnologias como ferramentas que garantam a verdade desportiva e minorem o erro humano, a revisão do enquadramento legal e fiscal que permita aos clubes e ao Estado fixarem receitas provenientes das apostas “on line” e aumentar consideravelmente o número de adeptos nos estádios.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

ESTAVA ESCRITO NAS ESTRELAS...


A candidatura de Manuel Alegre à Presidência da República era, há muito, uma inevitabilidade. Diria mais, desde o dia em que alcançou um resultado notável – face a todas as circunstâncias – e na sequência do crescente afastamento de Alegre do Partido Socialista (leia-se Sócrates) que estava “escrito nas estrelas” este desígnio do poeta.


Aliás, a natureza da eleição presidencial é muito clara: a candidatura é pessoal e não partidária. Em rigor, Alegre depende apenas de si mesmo e da respectiva vontade. Os apoios partidários vêm depois. Ou não…

Assim, o que se pode discutir é apenas o momento da apresentação da disponibilidade pública de Alegre para o cargo. Nunca por nunca a legitimidade do gesto.

E, mesmo quanto à oportunidade, devo dizer que Alegre está a ler bem o contexto: Cavaco Silva atingiu os níveis mínimos de popularidade; as relações entre S.Bento e Belém agudizaram-se e não dão mostras de serenar; o estado social e económico do país obrigaria a um papel mais activo do Presidente enquanto força mobilizadora e não substitutiva do governo…Isto é, há evidentes razões para se abrir (a um ano de distância) o dossier presidencial, tanto mais que Alegre precisa de tempo para se dar a conhecer.

Curiosamente (ou não) ao governo e ao PS também interessa esta desfocagem da realidade: enquanto comentadores, analistas, repórteres falarem de Alegre e das presidenciais sobra menos tempo para a crise e para o défice.

Impressiona-me, por isso, a inabilidade dos que (sendo socialistas) criticam Manuel Alegre por estar a trilhar um caminho que, nesta fase, só poderia ser seu. Sobretudo quando dentro do próprio PS não existem alternativas, nem assumidas nem veladas. Mais, ao invés de afastarem Alegre deveriam querer chamá-lo para se ouvir o que pensa do futuro.

Mas, não! Fazem tudo ao contrário…

Manuel Alegre, goste-se ou não, tem um papel na história deste país. Tem uma obra literária invejável. E no seu “adn” a marca Coimbra, pelo que desta cidade deveria partir o seu principal bloco de apoio, podendo com isso recuperar uma relevância política há muito perdida.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

DEMOCRACIA DIGITAL XXXIX


“Andar nas nuvens” vai literalmente ser uma expressão própria da internet em muito pouco tempo. Afinal de contas, a “cloud computing” é um tendência inelutável no futuro próximo com impacto tremendo na organização das empresas e das pessoas quando se pensa na Web.


Mas o que é isso da “nuvem”? É o novo modelo de acesso à informação pessoal e corporativa, que passa a estar disponível “algures” sem que tenhamos de nos preocupar em carregar o computador pessoal onde a memória concentra os nossos dados ou o servidor da empresa.

Dito de outro modo, a “nuvem” é sinónimo de agilidade e comodidade, de melhor e mais fácil e acesso e, quando pensamos em serviços públicos ou de empresas, em racionalização de custos porquanto de podem dispensar muitos investimentos em servidores.

Quem nunca se viu na contingência de não poder aceder a informação urgente por se ter

esquecido do respectivo portátil? E quando os servidores da empresa estão em manutenção?.. Enfim, este tipo de situações passam a fazer parte do passado, com o que isso significa de ganhos de eficácia e economia de tempo e de meios.

As estruturas, as plataformas tecnológicas, o próprio software e a capacidade de armazenamento (memória) passa a estar disponível fora da empresa, da nossa casa ou dos próprios serviços públicos. Pagar-se-á apenas o serviço a entidades terceiras que farão a gestão daqueles elementos. Um avanço tremendo na economia.

Obviamente, que existe ainda o cepticismo próprio do que é novidade, sobretudo apreensão quanto aos riscos de segurança e confidencialidade, porém, no “país do cartão do cidadão”, estão já desenvolvidos e no terreno diversas soluções de encriptação que salvaguardam a propriedade e a reserva dos dados. Não há que temer!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

PLANIFICAR É PRECISO!


A tragédia haitiana trouxe, lamentavelmente, para a ordem do dia diversas insuficiências globais e nacionais. Desde logo, a inexistência no Mundo de uma organização que tenha por objecto acudir (diria mesmo ajudar a prevenir) a catástrofes naturais, porquanto se percebem, nestes momentos as fraquezas das Nações Unidas e do seu modelo actual, ficando as vítimas na dependência do maior ou menor voluntarismo da dita comunidade internacional.


Por outro lado, e face ao recente semi-fracasso da Cimeira do Ambiente em Copenhaga, levantam-se as vozes científicas que estabelecem um nexo causal entre estes fenómenos e a forma irresponsável como o Homem tem gerido a sua relação com a natureza e com o tema ambiente em geral. Na dúvida, mais levar a sério os avisos sucessivos que a Terra nos tem dado e definitivamente encontrar uma política global de entendimento para a preservação ambiental e mitigação de riscos. Ora, os “senhores do Mundo” têm negligenciado este imperativo.

Finalmente, diz o povo com razão que “casa roubada, trancas na porta”, pois bem, mais vale tarde que nunca para se analisar em cada país o modelo de segurança e prevenção de riscos. Atentemos, então, no caso português.

Até agora não ouvi nenhuma opinião esclarecida que pudesse confirmar a existência de um plano estruturado para reagir em situações de crise desta natureza. Na verdade, estamos a tratar de matéria que afecta a segurança e soberania nacionais. Observe-se o caso haitiano: o país é, hoje, praticamente inexistente. Já não são apenas (como se fosse pouco!!) vidas perdidas e as consequências ao nível de saúde pública, além da ruína das estruturas que compõem um país, é o próprio Estado que pode ficar em causa.

Em Portugal, ficamos com prurido ao pensar em planificação. Aliás a nossa idiossincrasia desaconselha tal exercício, até porque sorrimos quando dizemos amiúde que somos imbatíveis na arte do improviso e que isso é uma mais-valia comparativa. Pois bem, pode até ser nalguns casos, mas na maioria não será decerto.

Há dias escutei com muita atenção um conhecido falar sobre como seria fatídico um episódio como o do Haiti caso ocorresse em Portugal. E, sublinho, não estamos imunes até porque há regiões reconhecidamente de elevado risco sísmico! Dizia, então, com detalhe, o tal especialista que Lisboa – onde está a maior massa populacional concentrada – ficaria totalmente isolada com o que isso pode significar em termos de perdas e danos humanos e materiais.

Confesso, fiquei apreensivo com o que ouvi e, realmente, decorridos todos estes dias desde a desgraça em Port-au-Prince ainda ninguém nos veio explicar que Câmaras Municipais, Escolas, Universidades, Hospitais e o restante país em geral estão preparados para evitar, reagir ou mitigar os riscos ou efeitos de uma situação análoga. E isto é factor de séria preocupação!

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

DO ESSENCIAL AO ACESSÓRIO


Antes de mais, é triste um país em que se discute, durante meses a fio, a avaliação dos professores, enquanto tema nuclear da educação. Ser avaliado deveria ser uma premissa pacífica para quem faz da sua vida avaliar, mas, infelizmente, não é assim!..

O país tem consumido – desnecessariamente - tempo e energia em demasia com greves, reuniões abortadas, reclamações e instabilidade lectiva.

Seria porventura muito mais importante o país parar para reflectir que modelos educativos deseja: por exemplo, um em que várias disciplinas fossem leccionadas em língua estrangeira (inglês em especial); outro em que a matemática e a história passariam a ser obrigatórias para todos nos 12 anos de escolaridade obrigatória; ou, ainda, um em que se valorizasse na formação do estudante as actividades extra-curriculares, o envolvimento na comunidade e a disponibilidade para o voluntariado. Sem esquecer o uso das novas tecnologias enquanto ferramentas incontornáveis de ensino, aqueles temas são verdadeiramente o que interessaria ter em cima da mesa. Mas não é assim…
Uma escola de futuro é um espaço crescentemente integrado no meio em que se encontra, em particular com uma relação directa com o mercado de trabalho. Não é aceitável que apenas na Universidade se criem gabinetes de saídas profissionais nem tão pouco que apenas aí se organizem feiras voltadas para o mundo do trabalho. Esse é um processo que deve começar inexoravelmente mais cedo. Quanto mais cedo melhor.
Até aqui, em Portugal, regra geral, às reformas sucederam-se as contra-reformas propostas pelos diferentes partidos e neste vai-e-vem acabou por se perder muita oportunidade de mudar a sério. A estratégia de varrer para debaixo do tapete – não se muda no secundário esperando que tudo se faça no superior – tem dado maus resultados. Basta atentarmos nos indicadores internacionais…
Enfim, em Portugal, quando se fala em educação valoriza-se demasiado o acessório escondendo o que é realmente essencial.
A nova relação alcançada entre professores e governo é louvável, como todos os acordos profissionais, porém esconde algo muito mais importante que tem sobretudo a ver com a escola do futuro. A tal escola do “Magalhães”. E isso não se pode construir sem os professores. Eles sabem disso. Abusam disso!
Ao menos que deste processo possa resultar como adquirida a virtude da avaliação, independentemente do sector (público ou privado) e classe profissional. Um país pouco exigente consigo mesmo teme a avaliação e, a final, a mediocridade grassa!

domingo, 10 de janeiro de 2010

DEMOCRACIA DIGITAL XXXVIII


Enquanto governos e municípios tendem a criar novos pontos gratuitos de acesso à internet – pensemos nos “hot spots” em jardins, praças, repartições públicas, … - promovendo assim a utilização de novas tecnologias e a partilha máxima de informação, fazendo do acesso um direito e até um serviço público; ao invés, o sector hoteleiro contraria a tendência cobrando por vezes valores pornográficos por algo que considera “um luxo”.


Naturalmente, a opção dos gestores hoteleiros é legítima – apesar de duvidosa rentabilidade - porém fará pouco sentido nos dias que correm. Viajantes frequentes e jovens fazem cada vez mais as respectivas escolhas em função da oferta do serviço de acesso à net, pelo que fazer disto um privilégio é contrariar não só um movimento natural como afastar fluxos de potenciais clientes. No meu caso, faço disto um factor de selecção!

De igual modo, nunca percebi o racional de cobrar montantes exorbitantes por minuto na telefonia fixa, quando hoje toda a gente tem telemóvel e os operadores até oferecem as chamadas em alguns períodos do dia. Não fora a necessidade de contactar a recepção…

Convenhamos, num país que tem no turismo um dos seus sectores mais estratégicos e com maior potencial de crescimento por mais programas tipo “Allgarve” que se façam é nos pequenos detalhes que se marca a diferença. A percepção do cliente e a qualidade do serviço prestado podem ajudar a crescer ou…a desaparecer. E a internet pode ser determinante!
Publicado no Jornal OJE

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

ERROS DE CASTING


Um amigo costuma dizer que “uma bananeira não pode dar laranjas”. É bem verdade! Serve a imagem para descrever que há perfis dos quais não poderemos esperar resultados ou performances, apesar de muito o desejarmos. Ora, na vida política – nacional e local - isso sucede amiúde…

Cavaco Silva é, manifestamente, um erro de casting. Não por que não tenha qualidades para o cargo, mas, sobretudo, porque tem mais virtudes para um outro cargo que já exerceu e que gostaria de voltar a desempenhar. Mas o tempo não volta atrás e os ditos cargos podem ser (e são-no tantas vezes) conflituantes!

Belém foi para Cavaco Silva, essencialmente, uma aventura imposta por amigos e conselheiros (interesses difusos…conforme se tem provado), ou seja, a sua circunstância, recordando Ortega y Gasset, mais do que a sua idiossincrasia e vontade individual. Por tudo isso, o resultado não poderia ser grande coisa…

Apesar de tudo (e sem retirar uma vírgula acima), sou dos que, confesso, acho que na primeira parte do mandato, Cavaco Silva acertou no modo e no tempo de exercer a respectiva magistratura de influência. Aliás, o ambiente de “beijo-na-boca” que então se viveu entre Belém e São Bento é disso a prova contundente: deixou governar e influenciou q.b. numa óptica de cooperação estratégica, como teve oportunidade de qualificar a dita relação institucional.

Historicamente, os problemas de relacionamento entre o Presidente e o Primeiro-Ministro, os actuais ou os anteriores, tiveram regra-geral origem em Belém e na tentação para extravasar os respectivos poderes. Quando o Presidente quer governar o caldo entorna-se!

Ora, Cavaco durante os primeiros anos – longe ainda do ambiente eleitoral – teve a clarividência de se afastar do que mais aprecia: intervir e executar, em suma, governar. Porém, o ciclo eleitoral de 2009 associado à fragilidade política da Amiga Manuela e o aproximar no horizonte das presidenciais foram introduzindo as variáveis necessárias para alterar por completo o equilíbrio de forças entre Cavaco e Sócrates. Cavaco ficou até toldado, conforme comprova o lastimável episódio das escutas, até hoje não devidamente esclarecido!

Nesta época natalícia, aquilo que seria mais uma mensagem de paz e de esperança do Presidente da República rapidamente se transformou numa declaração política com múltiplas interpretações e significados, alimentando os mentideros, as colunas e os opinadores políticos nacionais.

Não percebo porquê!? Cavaco já está em campanha eleitoral e, pela primeira vez na história, parte para uma possível reeleição sem a mesma garantida à partida. Facto inusitado. Mais, tem à esquerda um candidato muito forte (Alegre) e de perfil absolutamente oposto, logo tem que marcar terreno e fazer o “homem-a-homem” a Sócrates. Uma vez mais vai querer “governar”…

O grave de tudo isto é que os portugueses não entendem e têm razão: o país não se compadece com mais jogos de sombras e de bastidores…Talvez não voltem a repetir os erros de casting.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

SEPARAR O TRIGO DO JOIO


É verdade que a forma muitas das vezes é tão importante quanto o fundo. Mas é, igualmente, verdadeiro dizer que em muitas ocasiões há quem se agarre à forma para esconder a falta de conteúdo ou para desfocar do essencial. Vale isto para dizer – a propósito do casamento entre pessoas do mesmo género – que a discussão formal em curso pretende apenas “tapar o sol com a peneira”.


Não aceitar o casamento, mas apenas a união civil; assim como não concordar com a aprovação do diploma pelo governo ou pelo parlamento, mas antes por referendo é, em meu entender, um exercício de calculismo político para uns e de pura demagogia para outros.

No contexto civilizacional actual, impedir duas pessoas, apesar do género, de se unirem e, por via disso, obter iguais direitos (e deveres!) a outras uniões é incompreensível e desajustado. Só por puro preconceito se pode aceitar o “ok, que se juntem, mas não têm os mesmos direitos dos casados”.

Discriminar negativamente em função da raça, da cor, do credo, entre outros, é há muito (felizmente) considerado um crime, pelo que se não compreende qualquer tipo de discriminação em função das opções sexuais, quando isso diz apenas e só respeito ao próprio indivíduo e à sua consciência, não afectando em nada a comunidade ou o relacionamento com os outros. Aceitar que o Estado, a Lei ou os dictâmes da Igreja se imponham à vontade e as liberdades individuais (no caso) é absolutamente inaceitável e um retrocesso social e cultural.

Pois bem, há muito que Portugal – integrado na União Europeia onde outros países ditos mais avançados já deram esse passo – está preparado para reconhecer a pessoas do mesmo sexo o direito a casarem e, por via disso, as mesmas prerrogativas e deveres legais. Finalmente houve a vontade política que faltava, visto que a consciência social dominante era a este propósito pacífica. Fica bem ao Partido Socialista cumprir uma promessa eleitoral com tal celeridade (assim cumpra outras noutros domínios) e fica-lhe melhor ainda afirmar-se como partido que privilegia os direitos individuais e as liberdades. Essa é a marca da esquerda moderna!

Resta-me alertar para um erro que me parece alguns (os fanáticos) desejarem cometer: querer avançar de imediato para a adopção por pessoas do mesmo sexo. Para que conste sou defensor da adopção por casais homossexuais, porém este ainda não é o tempo nem o momento.

Ora, ao contrário do que acima se disse, parece-me que o país precisa ainda de debater melhor o tema da adopção, as consciências precisam todavia de compreender que manter crianças institucionalizadas é pior do que as entregar a quem as quer amar, independentemente da opção sexual. Portugal precisa, porém, de ser confrontado com as suas fraquezas legais e administrativas no domínio da adopção para, depois sim, se mudar: não apenas permitindo a casais homossexuais que adoptem, mas facilitando aos milhares de tantos outros (heterossexuais) que desistem no labirinto burocrático. Sempre com prejuízo das mesmas: as crianças!

CONTRA-CORRENTE


Temos por hábito dizer que é muito difícil dar presentes a quem já tem muito ou quase tudo, por isso mesmo esta época natalícia se pode facilmente transformar num pesadelo quando procuramos prendas para alguns familiares e amigos mais afortunados.

Mas o inverso não é menos verdadeiro: decidir o que oferecer a quem não tem nada ou tem muito pouco é de igual modo uma tarefa árdua, porquanto a definição de prioridades e a presunção do que é melhor para os outros é frequentemente motivo de discórdia.

Se estas regras simples se aplicam ao quotidiano dos homens, de igual modo se estendem aos das organizações, entidades e Estados. Vale isto para dizer que não é nada fácil responder ao desafio de buscar prendas para o país e menos ainda para a cidade de Coimbra…porque lhe falta quase tudo!

O actual contexto aconselha a muita contenção nos custos e, sobretudo, a maior prudência nas opções, por isso mesmo eu ficaria neste desiderato pelo campo das atitudes e menos pelo das soluções materiais.

Nota prévia – gosto de seguir o ditado antigo que diz que se conselho fosse bom seria vendido e não dado! Posto isto…

Ao país falta estima – bem sei que é histórico, mas… - por isso seria muito importante adquirirmos uma outra atitude nacional: de mais reconhecimento pelos nossos próprios valores, feitos e conquistas. Há muitos a quem falta “Mundo” para compreenderem como “lá fora” nem tudo é bom e que há muito feito “cá dentro” que também é cobiçado. Por isso Pai Natal venham de lá sacos e sacos de auto-estima para Portugal.

Mas Portugal precisa também de mais ambição. Ser segundo é sempre ser o primeiro dos últimos, dizem. Concordo. Para sairmos da cepa torta temos de querer ir mais longe, de fazer melhor, de alcançar sempre mais. Não nos poderemos resignar com a mediania. Há no país muitos e bons exemplos de vencedores mundiais. Há que estudar os conceitos e replicá-los. Nas escolas, nas empresas e, sobretudo, no Estado.

Portugal precisa, acima de tudo, de definir para si um modelo que assente no mérito. Um conjunto de indicadores que ponham os portugueses em avaliação permanente e com metas mensuráveis, que uma vez atingidas devem ser objecto de premiação e de reconhecimento. Uma sociedade que não reconhece os melhores não promove a competição; uma comunidade que não é a competitiva cai no atavismo e fica-se pela mediania.

Por fim, Portugal precisa mesmo de mais sentido da responsabilidade. Sobretudo quem tem poder (dos políticos aos jornalistas, dos gestores aos juízes) deve ter consciência do real impacto que as respectivas acções e omissões geram nos outros, sejam ou não os destinatários directos.

Em Portugal pensa-se pouco no efeito decisório, só isso pode justificar a vulgaridade com que se trata o segredo de justiça, a banalização com que se fala de eleições antecipadas e a intencional destruição pública do Projecto Magalhães, por exemplo.

Enfim, se o país precisa de tudo isto (e de muito mais) imagine-se uma cidade como Coimbra, há muito um modelo de mediania e de atavismo! Votos de tudo igual ao país, mas em…dobro!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

DEMOCRACIA DIGITAL XXXVI


Na semana em que o Mundo tem os olhos postos em Copenhaga por causa da Cimeira do Clima, vale a pena perceber de que modo a internet e as novas tecnologias foram contribuindo nos tempos mais recentes para a sustentabilidade ambiental do planeta.

Há muito que o cálculo da “pegada ecológica” (ecological footprint) pode ser feito na net, dando-nos a percepção real da “quantidade de terra e água que seria necessária para sustentar as gerações actuais, tendo em conta todos os recursos materiais e energéticos gastos por uma determinada população”.

Ora, este tipo de iniciativa, promovida por diversas universidades e organizações não governamentais (ex: http://earthday.net/footprint2/index.html), tem feito mais pela consciencialização ambiental, sobretudo das novas gerações, que muitos diplomas legais ou conferências inter-governamentais.

Hoje em dia, as novas tecnologias permitem a divulgação eficiente de boas práticas e, essencialmente, consubstanciam modelos energeticamente eficientes. Os utilizadores e consumidores têm uma crescente consciência ambiental, de tal modo que as opções são feitas não apenas com base na performance dos produtos e serviços, mas também no respectivo comportamento energético e ambiental.

Ser “Amigo do Ambiente” não é mais uma questão marginal de meia-dúzia de “freaks”; é efectivamente uma condição diferenciadora no mercado para conquistar a simpatia generalizada dos consumidores; é uma marca distintiva para políticos e políticas; é, em suma, um sinal dos tempos modernos em que as consciências colectivas acordaram para aquele que é seguramente o maior desafio para a condição humana: preservar o planeta e o ambiente.
Publicado no JORNAL OJE

EUROPA: NÃO HÁ MAIS TEMPO A PERDER!


O Tratado de Lisboa é um marco importante no processo de construção europeia. Para nós, portugueses, duplamente relevante: pela reforma institucional que consubstancia e por fixar o nome da nossa capital para a posteridade.


Mas, a final, tudo isso será muito pouco se os actores europeus – eurocratas, eurodeputados, governos e parlamentos nacionais – não compreenderem que o tempo escasseia para definitivamente ser criada uma verdadeira identidade europeia.

Depois de criada para unir na construção do pós-guerra, de alargada para fazer face aos dois blocos da “Guerra Fria”, de aprofundada por via de um mercado e de uma moeda comum é, hoje, chegado o tempo do passo seguinte: criar uma efectiva cidadania europeia.

E o que é isso da cidadania europeia? É um quadro de valores comuns no domínio social, cultural e político. O mesmo será dizer que uma vez criada a Europa dos números importa agora edificar o mais relevante. Tudo o resto!

Enquanto existirem disparidades sociais tremendas entre os diversos cidadãos europeus (designadamente nos rendimentos e nos indicadores de qualidade de vida) a ideia europeia está longe de ser efectiva. Enquanto as oportunidades para os jovens forem substancialmente distintas no seio dos 27 países estamos muito longe de uma cidadania europeia. Enquanto os níveis de desemprego forem totalmente assimétricos no mesmo espaço geográfico não poderemos falar numa Europa socialmente justa…

A verdade é que continuamos a ter várias Europas e não uma Europa. E dentros das várias europas agregações de interesses. Temos a Europa dos países ricos e a dos países pobres. A Europa do Norte e a Europa do Sul. A Europa do eixo Franco-Alemão e a Europa dos outros. A Europa dos cépticos e a Europa dos convictos. A Europa dos interesses agrícolas e a Europa da Inovação. A Europa aberta e a Europa proteccionista. Enfim, este “puzzle” europeu tem dificultado a construção das referidas identidade e cidadania europeias.

Pois bem, por mais interessante que seja o novo ordenamento jurídico do Tratado de Lisboa, por mais inovadoras que sejam as mudanças nas maiorias deliberativas, por mais carismáticos que possam ser o Presidente do Conselho Europeu, da Comissão ou a Alta Representante tudo isso significará muito pouco se no curto prazo a Europa social, cultural e política não existir de facto. Hoje ela está longe, muito longe mesmo, de existir.

Esta ausência de uma identidade europeia tem permitido que os grandes blocos emergentes – China, Índia e Brasil – além dos Estados Unidos, claro, se afirmem crescentemente: nas trocas comerciais, nas influências culturais, no poderio militar, em suma, no comando geo-estratégico do Mundo.A Europa que temos actualmente recorda-me aquela estória da pequena formiga que montada num grande elefante em movimento se dirige a este dizendo: “Ei Elefante, já viste a tamanha poeira que estamos a levantar?!...”. Tudo não passa de uma ficção. E já não há mais tempo a perder!..